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O ritual do esperneio

Pode ser que, diante da rápida sucessão de acontecimentos notáveis que temos testemunhado, meu assunto deste domingo já haja caducado, apesar da importância que lhe deram. Tudo agora é soterrado num passado cada vez mais próximo do presente e o famoso de hoje é o anônimo de amanhã, assim como a novidade tecnológica já sai obsoleta das prateleiras e as modas passam antes mesmo de pegar de todo. Nas últimas semanas, a velocidade de certos eventos chega a ser atordoante, para quem está, por exemplo, acostumado ao ritmo quelônio do Congresso Nacional e seu toque de bola no meio do campo, sem nunca chegar ao gol, mesmo porque o bicho já está garantido, quer haja gol, quer não haja. Até a renomada semana de três dias foi pressurosamente esquecida, uma coisa em que a gente só acredita porque viu na televisão.
A despeito disso, talvez alguém ainda lembre todo o alarido em torno da espionagem americana, na internet e nas comunicações por satélite. Embora certamente venha a sair das manchetes em breve, deve permanecer por aí ainda algum tempo, porque há todo um ritual a cumprir, uma coreografia de aparente complexidade, mas na verdade bastante simples. Consiste, basicamente, em fazer declarações e assumir posturas que todo mundo sabe serem inócuas, hipócritas, mentirosas ou tudo isto junto. Como existem, de uma forma ou de outra, precedentes para esse tipo de situação, já está disponível um estoque de reações mais ou menos padronizadas. Não há um só dos diretamente envolvidos que não saiba tratar-se de uma encenação, mas ela é levada adiante. Faz parte, imagino eu, do que muitos consideram ridículo, na condição humana.
Os protestos dos atingidos são feitos em discursos, pronunciamentos à imprensa e solenes reações diplomáticas. O fingimento começa em agir-se como se a espionagem tivesse sido inventada ontem e apenas os americanos a praticassem. É provável que a espionagem americana seja a mais bem aparelhada e a mais universal, mas as outras potências também espionam, embora, na hora da reclamação, isso seja deixado de lado, por complicar demais a coreografia. As médias e pequenas potências, as impotências e as miuçalhas também espionam o que podem, às vezes bem mais do que se concebe ou se teme. E a espionagem, inclusive comercial e industrial, sempre rolou solta.
O segundo fingimento é o de que fazer discursos e pronunciamentos adianta alguma coisa. Não adianta nada e ninguém ignora isso, mas, a depender das circunstâncias, podem ser feitos discursos inflamados e até cheios de xingamentos, pode-se bradar em defesa da soberania nacional e pode-se recorrer a organismos internacionais. Uma queixa na ONU, outra na OEA, outra aqui, outra acolá. E daí? De novo, todo mundo sabe que não vai dar em nada, mas essa parte do baile é aplicadamente dançada, entre vozes graves, cenhos franzidos e feições aguerridas. Ninguém esquece que os Estados Unidos não estão perguntando "não gostou, vai encarar?", mas estão pensando; sempre pensam - e é natural, ponhamo-nos honestamente no lugar dos americanos.
Segue outra parte da função. O espião nega que espionou e há quem respire aliviado. Mas acaso algum espião, ou patrocinador de espiões, admitiria espionar? Negar parece parte inerente dessa milenar atividade. Em seguida, vem um ato complementar, às vezes contrito, em que o espião faz que está aflitíssimo e morto de preocupação por causa das reclamações, pronunciamentos e recursos diplomáticos. Pede que desculpem qualquer coisa, diz que seu coração é todo do espionado, põe-se à disposição para explicações, convida para jantar, renova juras de amor eterno e, naturalmente, continua a espionar, só que com as cautelas ensinadas pela experiência. E todos os que podem continuam a espionar uns aos outros da melhor e mais disfarçada forma possível.
A não estou chamando ninguém de mentiroso, só estou pensando, pensar não ofende. Da mesma forma que os espiões negam espionar, ter espionado ou querer espionar, as grandes empresas americanas da internet, notadamente sites de busca, redes sociais e serviços de e-mail "gratuitos", nunca iriam confessar a transferência de dados a seu governo. Essas empresas fornecem serviços que o usuário otário acha que são de graça, mas são em troca de um volume de informações valiosíssimo. Somente os cruzamentos de dados estatísticos que elas podem fazer num piscar de olhos lhes dão um poder inestimável, pois é espantosa e aumenta a cada dia a quantidade de dados pessoais que entra na internet, geralmente fornecidos voluntária e até sofregamente pelos alvos de espionagem. Essas grandes empresas sabem qualquer coisa - como, para fazer uma gracinha, embora seja também uma possibilidade concreta, as identidades dos carecas míopes que residem em Copacabana em apartamentos de dois quartos e bebem cerveja no fim de semana. O governo americano sabe que eles sabem tudo isso e muito mais. Então, Deus que perdoe os que mal pensam, mas dá vontade de dizer a essas empresas "mordam aqui".
Não é à toa que os americanos querem pegar Edward Snowden, o autor das denúncias de espionagem. Não creio que isso acontecesse agora, mas ao longo de sua história, já enforcaram muitos que foram julgados traidores e na Guerra Fria torraram outros na cadeira elétrica, além de hoje manterem gente encarcerada e torturada sem julgamento ou culpa formada, eles não brincam muito em serviço. Não se enforca uma empresa e é óbvio que ela não quer ser traidora da pátria, não há dinheiro nem futuro nisso. Se estão decididos a encaçapar Snowden, pensem no prejuízo que uma empresa recalcitrante sofreria. Nada de básico, na espionagem reinante, foi ou será alterado, a não ser para aperfeiçoá-la. E além disso, a privacidade já morreu e não sabe, nada mais é segredo. Mas podemos continuar a espernear, por enquanto.
João Ubaldo Ribeiro
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Das resoluções

Judith se considera cheia de defeitos, e decide melhorar. Mas não é sua Lenda Pessoal que a empurra neste sentido; a sociedade diz que existe um padrão de crescimento, que é preciso atingir.
No final do ano, Judith faz uma lista de decisões para o ano seguinte. Os primeiros dias de janeiro são fáceis; ela obedece a lista, dá passos que sempre adiou. Em fevereiro, já não tem a mesma disposição, e a lista começa a falhar. Quando março chega, Judith já quebrou todas as promessas feitas no Ano Novo; e irá sentir-se pequena, incapaz, e culpada até a última semana do ano.
Quando, enfim, esta semana chega, ela faz de novo as promessas, e o ritual se repete.
Não devemos tentar melhorar naquilo que os outros esperam de nós, mas descobrir o que esperamos de nós mesmos. Aí nem é preciso prometer nada, porque mudamos com prazer e alegria.

Paulo Coelho
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Casamento

O tão discutido casamento homossexual não deixa de ser uma sequência natural da longa e estranha história de uma convenção, a união solene entre duas pessoas, que começou no Éden. A Bíblia não esclarece se Adão e Eva chegaram a se casar, formalmente. Deve ter havido algum tipo de solenidade. Na ausência de um padre, o próprio Criador, na qualidade de maior autoridade presente, deve ter oficiado a cerimônia. No momento em que Deus perguntou se alguém no Paraíso sabia de alguma razão para que aquele casamento não se realizasse, ninguém se manifestou, mesmo porque não havia mais ninguém. A cerimônia foi simples e rápida apesar de alguns problemas - Adão não tinha onde carregar as alianças, por exemplo - e Adão e Eva ficaram casados por 930 anos. E isso que na época ainda não existiam os antibióticos.
Mais tarde, instituiu-se o dote. Ou seja, as mulheres, como caixas de cereais, passaram a vir com brindes. O pai da noiva oferecia, digamos, dez cântaros de azeite e dois camelos ao noivo e ainda dizia:
- Pode examinar os dentes.
- Deixa ver...
- Da noiva não, dos camelos!
Houve uma época em que os pais se encarregavam de casar os filhos sem que eles soubessem. Muitas vezes, depois da cerimônia nupcial, os noivos saíam, ofegantes, para a lua de mel, entravam no quarto do hotel, tiravam as roupas, aproximavam-se um do outro - e apertavam-se as mãos.
- Prazer.
- Prazer.
- Você é daqui mesmo?
Eram comuns os casamentos por conveniência, pobres moças obrigadas a se sujeitar a velhos com gota e mau hálito para salvar uma fortuna familiar, um nome ou um reino. Sonhando, sempre, com um Príncipe Encantado que as arrebataria. O sonho era sempre com um Príncipe Encantado. Nenhuma sonhava com um Cavalariço ou com um Caixeiro Viajante Encantado. Mais tarde veio a era do Bom Partido. As moças não eram mais negociadas, grosseiramente, com maridos que podiam garantir seu futuro. Eram condicionadas a escolher o Bom Partido. Podiam namorar quem quisessem, mas na hora de casar...
- Vou me casar com o Cascão.
- O quê?!
- Nós nos amamos desde pequenos.
- O que que o Cascão faz?
- Jornalismo.
- Argk!
A era do Bom Partido acabou quando a mulher ganhou sua independência. Paradoxalmente, foi só quando abandonou a velha ideia romântica do ser frágil e sonhador que a mulher pôde realizar o ideal romântico do casamento por amor, inclusive com o Cascão. Só havendo o risco de o Cascão preferir casar com o Rogério.

Luis Fernando Veríssimo
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Do combate


Diz uma bela página da literatura árabe, citada por Mansur Chalita: “a metade do mundo sempre te será adversa: se fores bom, os maus te combaterão; se fores mau, os bons te combaterão”.
É claro que existe ainda uma terceira possibilidade: não ser nem bom, nem mau. Isto significa não tomar uma posição diante da vida, passar o tempo todo fingindo não perceber o que acontece a nossa volta.
Quem age assim, não tem metade do mundo lutando contra si; tem o mundo inteiro contra. Por mais que tente agradar, só consegue desagradar a todos. Dá uma mão, e um braço lhe é pedido. Tenta corresponder uma expectativa, e termina decepcionando mais ainda.
Bem feito. Porque quem age assim, está evitando os desafios que todos nós temos que enfrentar.

Paulo Coelho
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Nunca vi o arco-íris

Mas não fique com pena. Na verdade eu vejo o arco-íris como qualquer um, só nunca acreditei muito nessa história de que existiam sete cores nele - no máximo, umas quatro ou cinco. Não me peça para dizer qual é qual.

O daltonismo foi assunto de matéria na Folha de ontem. Se 8% dos homens do mundo são daltônicos, possivelmente todo mundo conhece um monte de rapazes que, vez ou outra, compram lindas camisetas lilás no shopping dizendo que gostam de um azul-marinho. O rosa também está sempre presente no vestuário daltônico, mas, felizmente para nós, hoje em dia essas coisas alegres viraram moda, aparentemente.

Os daltônicos talvez só não tenham saído do armário. Porque, quando ele faz isso (ou se entrega falando alguma cor errada), ninguém acredita - isso não é daltonismo, imagina, é fanfarronice. Depois chove gente apontando para todos os lados e perguntando "que cor é aquela?". Nada divertido.

E tem muita gente que morre sem saber do seu daltonismo.
Quando eu era criança, decorava os números dos lápis de cor. Devo ter começado com isso depois de ter pintado algumas vezes lindas copas de árvores vermelhas e, claro, alguém ter me dito que aquilo estava meio estranho. Inocência infantil: me parecia um desperdício enorme aquelas caixas com 48 lápis coloridos. Eram tantos repetidos, afinal.

Apesar das dificuldades para entender as inovações da Faber Castell, é possível viver tranquilamente sendo daltônico. Tudo bem que nunca consegui ver um Internacional de Porto Alegre contra Palmeiras, mas não faz tanta falta assim. E um toque de injustiça: talvez eu não veja as ruivas exatamente do jeito que elas são.

É bom saber que, no futuro, talvez exista uma cura. Mas o interesse no tratamento surge mais por curiosidade de saber como é que, afinal, o resto do mundo vê as coisas do que por estar incomodado com o daltonismo.

Quem sabe você não é um de nós? Que número você vê no desenho abaixo? Pessoas com visão normal enxergam o número 74. Daltônicos, entretanto, podem ler o número 21 (talvez bem fraquinho) ou não conseguir ler nenhum número, dependendo do tipo de daltonismo que possuem.

Ricardo Mioto
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A hora da decisão


Um vendedor de camelos chegou numa aldeia vendendo belos animais, por excelente preço. Todos compraram – menos o Sr. Hoosep.
Tempos mais tarde, a aldeia foi visitada por outro vendedor – com excelentes camelos, mas com preços bem mais altos. Desta vez, Hoosep comprou alguns animais.
- Você deixou de comprar os camelos quase de graça, e agora vai adquiri-los por quase o dobro? – criticaram os amigos.
- Aqueles que estavam baratos me eram muito caros, porque na época eu estava com pouco dinheiro – respondeu Hoosep.
- Estes podem parecer mais caros; mas para mim são baratos, já que tenho mais que o suficiente para comprar.

Paulo Coelho
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A força e autopia


Num ano qualquer do século passado, estava em Milão, a trabalho, tive tempo e vontade para visitar uma exposição dedicada a Leonardo da Vinci, que incluía grande parte de seus projetos científicos e mecânicos. Acredito que quase todo mundo conhece, pelo menos em parte, alguns desses desenhos ou deles tomou conhecimento.
Sabe-se com alguma certeza que ele previu, rudimentarmente, mas com séculos de antecedência, algumas das maiores conquistas da técnica e da indústria em geral, como o avião, o submarino, o helicóptero, o automóvel e até mesmo a metralhadora e os tanques de guerra.
Verdade seja dita: o princípio dessas máquinas formidáveis, sonhadas e criadas em esboços por Da Vinci, é o mesmo das que atualmente dispomos. O que lhe faltou foi a força motora, ou seja, uma fonte de energia autônoma, que fizesse suas geringonças voar, submergir, andar, disparar projéteis etc.
No tempo dele, a energia conhecida e utilizada vinha dos braços ou das pernas do próprio homem, de alguns animais, como o cavalo, o boi, e sobretudo dos ventos, que moviam embarcações e moinhos.
A própria água, que estava tão na cara como geradora de energia, era pouquíssimo usada em precários moinhos. Os elementos de transmissão, por serem muito complexos e até mesmo desconhecidos, impediam que a humanidade usasse a poderosa energia da gravidade hidráulica.
Mas o princípio técnico ou científico dos projetos de Leonardo era basicamente o mesmo que a tecnologia contemporânea usa e abusa para mover e criar o novo mundo nem sempre admirável em que vivemos.
O seu helicóptero, por exemplo, tinha o rotor e as pás iguais às de hoje. O diabo é que eram movidas por seis homens robustos, instalados numa plataforma anexa. Eles tinham de rodar continuamente várias manivelas com força suficiente para manter o aparelho no ar. Evidente que o projeto ficou no papel até que os motores de explosão, os jatos e a energia atômica pudessem substituir a força humana.
Bem, onde quero chegar? Para falar com honestidade, não quero chegar a lugar algum. Se possível, desejaria apenas partir, sair de onde estou, mesmo sabendo que nunca chegarei onde os sonhos da humanidade nunca chegam.
Pelo menos, no que me diz respeito, tais e tantos sonhos de todos nós nunca serão para os meus fatigados dias. Um deles, certamente o mais importante, vem lá de trás, da mais profunda antiguidade, mas vem sendo descartado do projeto humano pela sua aparente inviabilidade.
Dando um exemplo doméstico e atual: muitos dos princípios contidos em nossa Constituição (1988), que é uma obra-prima de utopia, um sonho impossível como o do "Homem de La Mancha", ficarão adormecidos por muito tempo, talvez séculos. Há que esperar por uma força de energia que ainda não conhecemos.
Assim como nos tempos de Da Vinci seria impossível imaginar a força do vapor ou do motor de explosão, ignoramos qual será a fonte energética na escala social, econômica e política capaz de fazer funcionar as roldanas da complexa engrenagem que agora nos parece inviável ou absurda.
Leonardo foi considerado um charlatão pelos sábios de sua época. Toleravam-no como pintor, somente isso.
Voar? Mais fácil seria fazer um burro voar. Contam que os colegas de São Tomás de Aquino, também frades dominicanos, o chamaram para ver exatamente isso: um burro voando.
O autor da "Suma Teológica" saiu de sua cela e foi ver o burro que voava. Os colegas zombaram dele. Um sábio, o maior da Idade Média, acreditava que um burro podia voar.
O doutor Angélico comentou: "Devia ser mais fácil um burro voar do que um religioso mentir".

Carlos Heitor Cony
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Os olhos do abutre



A Edgar Allan Poe


Andava à tarde pela Av. Rio Branco quando intuiu que alguém o seguia. Subitamente, girou a cabeça para trás pressentindo que segurariam seu braço. Não havia ninguém, além das centenas de rostos desconhecidos que formam o monstro disforme e imprevisível que chamamos de multidão. 

Continuou caminhando, apressou o passo. Sentia-se zonzo, seus sapatos pisavam sobre uma calçada inconsistente, o concreto nunca antes lhe aparentou ser tão abstrato.

Convencia-se de que não precisava se preocupar, muito tempo se passara desde que executou a tarefa que lhe cabia. O destino é uma força que se cumpre, mesmo que a fragilidade do arrependimento venha depois, assim ele pensava...

A primeira vez que viu Rose, naquele sobrado da Rua do Acre, todos os seus sentidos foram tomados por uma paralisia angustiante. O universo congelou quando ela se aproximou e encostou o corpo quase desnudo ao seu. Ela tocou-lhe o rosto e perguntou o porquê dele estar sozinho e com aparência triste num canto do salão. Ele ficou mudo, não conseguiu emitir nem sequer um som; ela sorriu, encarou seus olhos profundamente, deu-lhe um beijo leve nos lábios e se afastou.

Uma mulher havia lido sua alma, uma meretriz da Praça Mauá o havia decifrado, ele sentia um misto de nojo e surpresa. A lembrança de Rose era a obsessão dos seus dias, não podia mais pensar em nada que não rodasse em torno da daquela imagem feminina que lhe surgiu tão intrigante.

Ele continuava andando, tinha certeza que alguém o seguia...

Como poderiam ter descoberto o que fez? Tudo saiu como planejara, tudo perfeito! 

Olhava em volta, na tentativa de identificar seu perseguidor naquele turbilhão de faces e olhos. Nada! Inútil! Seus passos ficaram mais largos, a respiração mais ofegante e as recordações continuavam a brotar em cascata.

Depois da primeira vez em que a viu naquele prostíbulo, retornou em muitas outras noites para sentir-se próximo a ela. Nunca a tocou, ficava observando seus gestos, tentava ouvir sua voz em meio ao barulho da música ensurdecedora, torturava-se ao vê-la em beijos promíscuos com outros homens. Ela conhecia o seu segredo, ela o invadira.

Não se lembrava mais do momento em que decidiu fazer o que fez, talvez tenha sido na terceira visita àquele bordel, quando esbarrou novamente com os olhos de Rose o analisando, provocando-o a revelar-se. Rose tinha olhar de abutre, penetrava em suas entranhas e ele passou a sentir uma náusea insuportável, tinha ojeriza à sua presença, aversão à sua existência. Sim! Foi quando identificou aquele olhar de rapina que decidiu executar sua trama amoral.

Seu coração batia tão forte que podia escutá-lo, sua cabeça estalava em pulsações desordenadas. Por que o estavam seguindo? Como poderiam tê-lo encontrado? Ele pensou em parar e enfrentar quem o seguia, mas apressou o movimento das pernas, correu, queria escapar...

Antes da execução, dissecou detalhadamente a rotina de Rose, conheceu seu horário de entrada e saída no bordel do Centro da Cidade. Soube que ela saía sozinha e onde pegava a condução que a levava de volta para casa. Certo dia, seguiu a van que a transportava e descobriu que ela morava para os lados da Pavuna.

Agora, ele poderia traçar o roteiro do seu intento.

O fôlego começava a lhe faltar, mas as pernas respondiam numa corrida sem rumo no meio daquela selva de rostos anônimos, ele sentia a massa humana se contrair num espasmo voluntário. Queriam esmagá-lo. Ele estava acuado. Seu perseguidor não iria desistir.

O plano era simples e a técnica que usaria para eliminar a causadora do seu tormento se baseava numa leitura que havia feito há anos, num livro sobre medicina de guerra. Soldados usavam duas facas para apunhalar o inimigo na altura dos rins, simultaneamente. A dor era tão lancinante que a vítima não encontrava força para gritar. Seria assim!...

Quando Rose lançou-se pela Rua do Acre deserta e sombria, ele a chamou. Disse que havia atropelado um cachorro, pediu que ela o ajudasse a acomodar o animal no carro, que ele iria socorrê-lo. Ela se aproximou, curvou-se para tentar enxergar o cão ferido e ele então fincou, com violência e sincronia, os dois punhais nos rins da mulher.

Não houve grito, mas um grunhido abafado e terrível ascendeu do asfalto, o corpo de Rose petrificou-se. Ele a lançou no banco de trás da caminhonete e engrenou o carro pelo percurso que levava até a Pavuna. 

Havia muito sangue, mas ele cobrira os bancos com lençóis e toalhas. No meio do caminho, numa rua deserta e escura do subúrbio, enrolou o corpo nos panos e o descarregou no meio-fio. Os olhos de Rose tinham a expressão do vácuo, o abutre estava morto. Ninguém mais conhecia o seu segredo. Tudo era silêncio...

Suas pernas vacilavam... Desde o dia do assassinato passou a vagar pelo Centro, sabia que alguém passara a segui-lo. As batidas do seu coração oprimiam seus ouvidos, o cérebro queria explodir, não conseguia mais correr, alcançara seu limite. A multidão o envolvia num círculo fechado, seus perseguidores eram muitos, ele ainda tentou um último pique desesperado, mas tropeçou e se viu arremessado, como num salto, aguardando o impacto vertiginoso com o chão áspero. Ele se debateu e bradou a sua culpa enquanto despencava.

Acordou!...

Estava amarrado por correias a uma estreita cama de ferro, o ambiente era de penumbra, cortinas de plástico o contornavam, escutou passos em aproximação. Uma mulher vestida de branco surgiu diante dele, lia-se um nome bordado no jaleco que trajava: Sanatório Estadual.

Ela tocou seu rosto e olhou dentro dos seus olhos. Ele estremeceu e chorou, antes de adormecer novamente ao pico ácido de uma seringa.

Eram os olhos do abutre!...

 Alexandre C. Leite
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Você é um Envelhescente?


Se você tem entre 45 e 65 anos, preste bastante atenção no que se segue. Se você for mais novo, preste também, porque um dia vai chegar lá. E, se já passou, confira.
Sempre me disseram que a vida do homem se dividia em quatro partes: infância, adolescência, maturidade e velhice. Quase correto. Esqueceram de nos dizer que entre a maturidade e a velhice (entre os 45 e os 65), existe a ENVELHESCÊNCIA.
A envelhescência nada mais é que uma preparação para entrar na velhice, assim com a adolescência é uma preparação para a maturidade. Engana-se quem acha que o homem maduro fica velho de repente, assim da noite para o dia. Não. Antes, a envelhescência. E, se você está em plena envelhescência, já notou como ela é parecida com a adolescência? Coloque os óculos e veja como este nosso estágio é maravilhoso:
— Já notou que andam nascendo algumas espinhas em você? Notadamente na bunda?

— Assim como os adolescentes, os envelhescentes também gostam de meninas de vinte anos.

— Os adolescentes mudam a voz. Nós, envelhescentes, também. Mudamos o nosso ritmo de falar, o nosso timbre. Os adolescentes querem falar mais rápido; os envelhescentes querem falar mais lentamente.

— Os adolescentes vivem a sonhar com o futuro; os envelhescentes vivem a falar do passado. Bons tempos...

 — Os adolescentes não têm idéia do que vai acontecer com eles daqui a 20 anos. Os envelhescentes até evitam pensar nisso. 

— Ninguém entende os adolescentes... Ninguém entende os envelhescentes... Ambos são irritadiços, se enervam com pouco. Acham que já sabem de tudo e não querem palpites nas suas vidas. 

— Às vezes, um adolescente tem um filho: é uma coisa precoce. Às vezes, um envelhescente tem um filho: é uma coisa pós-coce. 

 — Os adolescentes não entendem os adultos e acham que ninguém os entende. Nós, envelhescentes, também não entendemos eles. "Ninguém me entende" é uma frase típica de envelhescente.

— Quase todos os adolescentes acabam sentados na poltrona do dentista e no divã do analista. Os envelhescentes, também a contragosto, idem.

— O adolescente adora usar uns tênis e uns cabelos. O envelhescente também. Sem falar nos brincos.

— Ambos adoram deitar e acordar tarde.

— O adolescente ama assistir a um show de um artista envelhescentes (Caetano, Chico, Mick Jagger). O envelhescente ama assistir a um show de um artista adolescente (Rita Lee).

— O adolescente faz de tudo para aprender a fumar. O envelhescente pagaria qualquer preço para deixar o vício.

— Ambos bebem escondido.

— Os adolescentes fumam maconha escondido dos pais. Os envelhescentes fumam maconha escondido dos filhos.

— O adolescente esnoba que dá três por dia. O envelhescente quando dá uma a cada três dia, está mentindo.

— A adolescência vai dos 10 aos 20 anos: a envelhescência vai dos 45 aos 60. Depois sim, virá a velhice, que nada mais é que a maturidade do envelhescente.

— Daqui a alguns anos, quando insistirmos em não sair da envelhescência para entrar na velhice, vão dizer:

—  É um eterno envelhescente!
Que bom.

Mário Prata
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Escrito com fogo


Quando lemos sobre os conflitos armados na Síria, no Egito ou no Mali, com suas dezenas de mortos por atentado, ou sabemos de mais um desajustado que passou fogo em 20 jovens numa universidade dos EUA, pensamos que, por sorte, não temos disso por aqui. Ou até temos, mas não em escala epidêmica, como a deles. Infelizmente, temos igual ou pior: a inépcia.
Ou a imprevidência, o despreparo, o desleixo, a inobservância das normas, a fiscalização superficial ou inexistente (mas com laudo de aprovação quitado e selado), o cansaço do material (já vagabundo na origem ou deixado em uso para morrer de velho), o desvio de recursos, a pura irresponsabilidade, a garantia da impunidade. Somos ineptos para minimizar danos das cheias, impedir desabamentos, prevenir incêndios. Somos ruins em saída de emergência, hidrante, vistoria. Não adianta, não é o nosso negócio.
Mas numa coisa ninguém nos supera: em solidariedade. Instaurada a tragédia, acorremos ao local em batalhões, confortamos os parentes, acolhemos em nossa casa, doamos sangue e enchemos caminhões com donativos, embora não possamos garantir que cheguem ao destino. Nossa humanidade não está em questão --nossa eficiência, sim. E, quando a tragédia se repete, não será por que não avisamos --apenas ninguém tomou providências.
Foi assim nas enchentes que mataram mais de 900 pessoas na região serrana fluminense, em 2011 (ocupação das encostas, lixo acumulado, assoreamento dos rios); nas chuvas e nos deslizamentos que mataram 723 no Rio, em 1966; no incêndio do circo em Niterói, que matou 503, em 1961; no do edifício Joelma, em São Paulo, que matou 188, em 1974; e em tantas outras desgraças que talvez fossem possível evitar.
Como a de Santa Maria, que estava escrita, com fogo, nas paredes da boate Kiss.

Ruy Castro
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Outras virão

As tragédias acontecem sempre: aviões caem, "titanics" afundam, mas sempre há uma tragédia não percebida entre nós, melhor, uma série de erros não anunciados que acabam desembocando na catástrofe de Santa Maria. Uma das piores do mundo. Mais um horror talvez evitável. Mas o defeito principal do País talvez seja a displicência, irmã da eterna incompetência que nos aflige desde a colônia. São as tragédias em gestação. 

Os problemas só surgem quando não há mais solução. Vejam os jornais, onde as notícias são sobre coisas que não deram certo, erros de cálculo, obras inacabadas, preços superfaturados, uma lista diária de fracassos, do que poderia ter sido e não foi. Ou então a inocência eterna: ninguém sabe de nada, ninguém pecou, ninguém roubou nunca. São os "desacontecimentos". Vejam agora os dois sujeitos que vão comandar o Congresso, ambos com denúncias graves na Justiça. Mais uma tragédia anunciada vem aí.

Mas fiquemos na pequena história do dia a dia, o "fait divers", mesmo que seja a espantosa calamidade que matou mais de 230 pessoas. 

Esse incêndio contou provavelmente com a colaboração de instalações precárias, fiscalização vencida, empregados mal preparados, idiotas semianalfabetos como os seguranças que trancaram portas, ridículas e irresponsáveis apresentações artísticas como esse conjunto de rock que soltou fogos de artifício para ocultar sua mediocridade e, lá, bem lá no fim, o inevitável "Acaso". 

Assim como somos um país em que os cargos técnicos são ocupados por alianças políticas, como o caso da energia, com um ministro que nem sabe acender um abajur, também o dia a dia é assolado pela mediocridade e falta de amor pelos empreendimentos realizados. Interessa sempre o lucro pelo menor gasto possível. Teremos agora o segundo ato: mães e pais chorando em desespero, busca de culpados, advogados negando erros e, aos poucos, nos esqueceremos dessa desgraça a mais. Outras virão. Só nos resta dizer mais uma vez: "Que horror!" e continuar a vida, hoje em dia feita de pressa, medo e suspense, num país onde o óbvio nunca é feito: só as desnecessidades.

Arnaldo Jabor
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O lápis



O menino observava seu avô escrevendo em um caderno, e perguntou:
— Vovô, você está escrevendo algo sobre mim?
O avô sorriu, e disse ao netinho:
— Sim, estou escrevendo algo sobre você. Entretanto, mais importante do que as palavras que estou escrevendo, é este lápis que estou usando. Espero que você seja como ele, quando crescer.
O menino olhou para o lápis, e não vendo nada de especial, intrigado, comentou:
— Mas este lápis é igual a todos os que eu já vi. O que ele tem de tão especial?
— Bem, depende do modo como você olha. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir vivê-las, será uma pessoa de bem e em paz com o mundo, respondeu o avô.
— Primeira qualidade: assim como o lápis, você pode fazer coisas grandiosas, mas nunca se esqueça de que existe uma "mão" que guia os seus passos, e que sem ela o lápis não tem qualquer utilidade: a mão de Deus.
— Segunda qualidade: assim como o lápis, de vez em quando você vai ter que parar o que está escrevendo, e usar um "apontador". Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas ao final, ele se torna mais afiado. Portanto, saiba suportar as adversidades da vida, porque elas farão de você uma pessoa mais forte e melhor.
— Terceira qualidade: assim como o lápis, permita que se apague o que está errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos trazer de volta ao caminho certo.
— Quarta qualidade: assim como no lápis, o que realmente importa não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro dele. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você. O seu caráter será sempre mais importante que a sua aparência.
— Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida deixará traços e marcas na vida das pessoas, portanto, procure ser consciente de cada ação, deixe um legado, e marque positivamente a vida das pessoas.
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