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Quando a escola é o espaço do inferno



Quase 1.000 alunos são punidos, suspensos ou expulsos por dia nas escolas. Quase 1.000 por dia, alguns com 5 anos de idade! Por abusos verbais e físicos. No ano passado, 44 professores foram internados em hospitais com graves ferimentos. Diante do quadro-negro, o governo decidiu que professores poderão “usar força” para se defender e apartar brigas. E poderão revistar estudantes em busca de pornografia, celulares, câmeras de vídeo, álcool, drogas, material furtado ou armas.

Achou que era no Brasil? É na Grã-Bretanha.

Os dados são de um relatório governamental. “O sistema escolar entrou em colapso”, diz Katharine Birbalsingh, demitida do Departamento de Educação depois de criticar a violência nas escolas públicas inglesas. “Os professores acabam sendo culpados pela indisciplina. A diretoria da escola estimula essa teoria, os alunos a usam como desculpa e até os professores começam a acreditar nisso. Eles não pedem ajuda com medo de parecer incompetentes.”

Os alunos jogam a cadeira no mestre, chutam a perna do mestre, empurram, xingam. Ou furam o mestre com o lápis, fazem comentários obscenos, estupram, ameaçam com facas. Alguns são casos extremos pinçados pela imprensa. Os números na Grã-Bretanha preocupam. Mostram que as escolas precisam restaurar a autoridade perdida. Muitos professores abandonaram a profissão por se sentir impotentes. Educadores mais rigorosos pregam tolerância zero com alunos bagunceiros e que não fazem seu dever de casa.

As reflexões de lá são iguais às de cá. A violência nas escolas seria uma continuação do lado de fora, na rua e nos lares. A hierarquia cai em desuso. Valores e limites, que quer dizer isso mesmo? Crianças e adolescentes não respeitam ninguém. Nem os pais, nem as autoridades, nem os vizinhos, os porteiros, os pedestres, os colegas, as namoradas. Há uma falta de cerimônia, pudor e educação no sentido mais amplo.

E aí a culpa é jogada nos pais. Por não mostrarem o certo e o errado. Não abrirem um tempo de qualidade com os filhos. Esquecê-los em frente a um computador ou televisão. O de sempre. O aluno que peita o professor também xinga os pais. Aric Sigman, da Royal Society of Medicine, em Londres, autor do livro The spoilt generation (A geração mimada), afirma que, hoje, até criancinhas nas creches jogam objetos e cadeiras umas nas outras. “Há uma inversão da autoridade. Seus impulsos não são controlados em casa. É uma geração mimada que ataca especialmente as mães”, diz ele.

E o que o governo britânico faz? Manda o professor revidar. Até agora, ele era proibido de tocar no aluno, mesmo ao ensinar um instrumento numa aula de música. A nova cartilha promete superpoderes aos professores. Mestres, usem “força razoável”, vocês agora têm a última palavra para expulsar um aluno agressivo, revistem mochilas suspeitas. Dará certo? Não acredito. Sem diálogo e consenso entre famílias, escolas, educadores e psicólogos, esse pesadelo não tem fim.

No Brasil, a socióloga Miriam Abramovay, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), admite que os professores passaram a ter medo. Numa pesquisa para a Unesco em Brasília, em 2002, um depoimento a chocou: “Um professor me disse que ia armado para a escola. Como se fosse uma selva. Isso mostra total descrença no sistema”. Ela acha que o Brasil está investindo dinheiro demais em bullying, mas esquece todo o resto: “Nossa escola é de dois séculos atrás”. Os ataques aos professores não se limitam à sala de aula. Carros dos mestres são arranhados, pneus são furados. Eles não têm apoio nem ideia de como reagir. Muitos trocam de escola ou abandonam a profissão.

Quando Cristovam Buarque era ministro de Lula, tinha, com Miriam, um projeto nacional de “mediação escolar” para prevenir conflitos, melhorar o ambiente e estimular o aprendizado. “Paulo Freire dizia que a escola era o espaço da alegria, do prazer, mas assim ela se torna o espaço do inferno”, diz Miriam. O projeto não vingou. Cristovam abandonou o barco por sentir que Educação não era prioridade nos investimentos. E continua não sendo. Deveria ser nossa obsessão.

Ruth de Aquino. Época Edição 687 - 16 de julho de 2011
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O culto ao 11/9

            

O 11 de Setembro mudou o mundo, dizem os textos comemorativos dos dez anos do atentado. Sem querer atrapalhar a comemoração, vale perguntar:
Mudou para onde?
A humanidade ainda não absorveu o quadro bizarro dos aviões perfurando as Torres Gêmeas. E nunca absorverá.
O grau de absurdo e dor contido naquela cena é indigerível. Repeti-la milhões de vezes não é sadomasoquismo. É a busca inevitável (e vã) pelo sentido da monstruosidade.
Os homens civilizados não fazem questão de entender o absurdo, mas não abrem mão de explicá-lo.
O 11/9 mudou o mundo, inaugurou o novo milênio, acabou com o sonho americano, instaurou a era do medo etc etc etc. Bin Laden deve estar explodindo de orgulho no fundo do mar.
Mas, afinal, que mundo é esse criado por Bin Laden e referendado pela sociologia fast food do Ocidente?
Se Osama venceu, onde está a prometida escalada do terrorismo internacional? Onde está a epidemia de homens-bomba barbarizando Paris, Nova York, Los Angeles e outras metrópoles pacíficas? O que houve com a al-Qaeda, que faltou a três Copas do Mundo e duas Olimpíadas?
Os especialistas mais animados estão dizendo que a atual crise financeira dos EUA começou no 11 de Setembro. Ainda vão descobrir que Bin Laden maquiou o balanço do banco Lehman Brothers e engendrou a sua falência.
Atribuir a escalada do déficit público americano aos pilotos suicidas da al-Qaeda é uma acrobacia e tanto. Não estraguem a teoria emocionante lembrando que há décadas os EUA crescem se endividando cada vez mais.
Melhor culpar – ou condecorar – o Osama.
Dizem que os americanos se afundaram em gastos militares no Afeganistão e no Iraque depois do atentado de 2001. Claro que, numa hora dessas, ninguém vai lembrar os trilhões de dólares enterrados na Guerra Fria – quando os EUA se firmaram como potência hegemônica. Perde a graça.
O 11 de Setembro abalou a fé na civilização Ocidental e forjou uma geração amedrontada, analisam os categóricos do caos.
É mesmo estranha essa geração amedrontada, que sai às ruas livremente nas maiores cidades da Europa e das Américas para defender seus direitos políticos, estudantis ou sexuais.
Geração amedrontada que se conecta com o mundo como nenhuma outra, surfando nas maravilhas tecnológicas da comunicação em rede – nascida da civilização Ocidental, ou, mais precisamente, dos Estados Unidos da América.
Esse, sim, um novo horizonte sociológico, que explodiu no mesmo período do 11 de Setembro, e dez anos depois ajudou a derrubar ditaduras no Oriente Médio.
Mas há ocidentais que preferem ver a internet como arma de fortalecimento da al-Qaeda.
Só não se sabe exatamente onde essa organização tão poderosa e letal para o Ocidente está atuando, fora da sociologia fast food.
Talvez tenha virado acionista do MacDonalds.
       
                          Guilherme Fiuza, 09/09/2011.Disponível em: http://colunas.epoca.globo.com/guilhermefiuza/
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O fim de Bin Laden

Quanto mais leio sobre as circunstâncias da morte de Osama bin Laden, menos gosto do conjunto. Até acredito que essa não poderia ter sido uma operação 100% de acordo com o direito internacional. Pedir licença aos paquistaneses, por exemplo, como exigem a boa educação e as leis, teria sido estúpido. É difícil acreditar que o líder terrorista tenha vivido por mais de cinco anos num espalhafatoso complexo ao lado de uma academia militar numa cidade a apenas 50 km da capital sem o beneplácito de gente importante em Islamabad.
A invasão do espaço aéreo paquistanês desponta, porém, como o menor dos pecados da investida norte-americana. À medida que os dias passam, vão surgindo também suspeitas de que parte das informações que levaram à localização de Bin Laden foram obtidas mediante tortura e, mais importante, ninguém em Washington deu ainda uma explicação razoável para o fato de o homem ter sido morto em vez de capturado e julgado. Custa crer que os Seals, uma das unidades militares mais bem treinadas e equipadas do mundo, não tenham sido capazes de fazer prisioneiro um franzino paciente renal crônico que se encontrava desarmado no momento do ataque. Que resistência sobre-humana ele pode ter oferecido? Convidado a vestir as algemas ele disse "não"?
Não sou dado a teorias conspiratórias. De um modo geral, sempre que ouço a palavra "complô", fico tentado a chamar um psiquiatra. Mas parece difícil aqui afastar a hipótese de que os Seals foram despachados por Barack Obama com a missão de matar Osama bin Laden. O "cui prodest" (a quem beneficia) não poderia ser mais eloquente. A aprovação ao presidente norte-americano, que tentará a reeleição no ano que vem, deu um salto de 11% percentuais, batendo em 57%, contra 46% no mês passado, de acordo com levantamento do Pew Research Center divulgado ontem. Ainda mais significativo, os analistas são mais ou menos unânimes em afirmar que o efeito na popularidade tende a ser duradouro, porque resolve um problema de imagem de Obama. Ele, a exemplo de outros mandatários do Partido Democrata, era visto como um líder pouco decidido em questões de política externa, o que poderia representar um risco para a segurança dos EUA. Ser o responsável pela morte do arquiteto do 11 de Setembro muda tudo.
Um espírito de porco poderia argumentar que o presidente colheria mais ou menos o mesmo benefício se Bin Laden tivesse sido capturado. Na verdade, poderia até ganhar mais, se o líder terrorista fosse julgado e condenado à morte umas duas ou três semanas antes da eleição. Pode ser, mas essa é uma aposta arriscada. Julgá-lo publicamente (e não em cortes militares secretas) envolve muitas incógnitas. Os EUA teriam, por exemplo, de colocar à disposição da defesa informações que poderiam comprometer seu aparato de segurança no exterior. Um tribunal isento não aceitaria provas obtidas ilicitamente, o que inclui informações arrancadas em sessões de tortura. Ainda pior, Bin Laden teria um palco para falar dos bons e velhos tempos em que ele recebeu apoio da CIA para lutar contra os soviéticos no Afeganistão. Não é algo que afete Obama diretamente, mas não podemos esquecer que também estão em jogo aqui os interesses da comunidade de segurança norte-americana.
Deixemos, porém, as análises políticas para os especialistas e nos concentremos nos paradoxos das sociedades ditas civilizadas. Poucas mortes foram tão celebradas quanto a de Bin Laden. No discurso em que anunciou a operação, Obama foi peremptório: "justiça foi feita". Os tabloides norte-americanos foram ainda menos circunspectos. O "Daily News", por exemplo, manchetou: "Apodreça no inferno".
Aliados tradicionais dos EUA foram na mesma toada do presidente. Até o normalmente comedido Conselho de Segurança das Nações Unidas classificou a ação como "avanço crucial". Nem o Itamaraty, que até há pouco flertava com Ahmadinejad e outros radicais islâmicos, escapou. O chanceler Antônio Patriota considerou positiva a morte do líder terrorista.
Exceto pelos partidários de Bin Laden, o consenso parece ser o de que ele mereceu o seu destino. Mas o que significa "merecer"?
Para tentar responder a essa pergunta, precisamos distinguir duas concepções de Direito das quais derivam os mais diferentes "blends" filosóficos.
A primeira e mais antiga é conhecida como lei de talião. É o famoso "olho por olho, dente por dente" do Antigo Testamento. Tecnicamente, leva o nome de justiça retributiva. Não difere muito da vingança. Aplica-se a pena porque o réu a "merece". Essa noção de merecimento, é claro, só faz sentido quando dispomos de um Deus ou alguma outra entidade metafísica que sustente uma ideia de Justiça perigosamente platônica.
O conceito de justiça retributiva começou a ser questionado no século 18, especialmente por Cesare Beccaria (1738-1794) e Jeremy Bentham (1748-1832). A partir do século 19 foi ganhando força a noção utilitarista de que a pena tem como objetivo, não a punição pela punição, mas a manutenção da ordem pública. O criminoso deve sofrer uma sanção para não voltar a delinquir e também para desencorajar outras pessoas a imitá-lo. Daí a necessidade de julgamentos públicos e de algum modo ritualizados --o famoso "due process of law" (devido processo legal). A pena já não precisa ser tão "cruel" como a ofensa que pretende coibir. É a certeza da punição e não a dureza de castigo que serve de freio à criminalidade, apregoava Beccaria.
Hoje é difícil sustentar, no mundo civilizado, a concepção puramente retributiva. Por razões que não cabe aqui comentar, os sistemas legais do Ocidente foram deixando de fazer referência a Deus e procuraram fundar-se como positivos. A notável exceção são os EUA, o único país industrializado que de fato aplica a pena de morte.
Eu, como um bom liberal, fico tentado a adotar um sistema puramente utilitarista, baseado unicamente na razão. Só iriam para a cadeia pessoas que representassem uma ameaça física à sociedade. Todos os demais sofreriam punições pecuniárias ou de prestação de serviços. Até aqui, muitos juristas de carne e osso me acompanham. Mas, se vamos seguir a trilha verdadeiramente racionalista, precisamos ir além. Mesmo um ditador genocida, como Adolf Hitler ou Saddam Hussein, teriam de ser poupados da forca e até mesmo da cadeia. É que, do ponto de vista utilitário, não ganhamos nada ao executá-los ou prendê-los, visto que, uma vez depostos, não teriam mais os meios materiais para voltar a cometer os crimes de que os acusamos. Até como exemplo sua punição tende a ter alcance limitado. Nenhum candidato a déspota deixa de converter-se num tirano por temor ao castigo.
E esse não é o único problema. Se levarmos a lógica utilitarista ao extremo, precisaremos considerar "válido" conter a ação de criminosos ameaçando seus familiares, por exemplo. Fica difícil defender essas coisas.
Gostemos ou não, o fato é que a biologia dotou cada um de nós de um senso de justiça, que precisa ser aplacado. E esse senso jurídico comum caminha perigosamente perto da boa e velha vingança. Um direito positivo utilitarista inteiramente divorciado de nossos impulsos naturais tende a ser rejeitado pela população, como uma Justiça que não faz justiça. E isso, evidentemente, o torna inútil como sistema de prevenção de delitos.
Por mais liberais que sejamos, precisamos fazer algumas concessões à natureza humana, que, especialmente em casos emblemáticos como o de Osama bin Laden, clama pelo "olho por olho". Cuidado, não estou aqui justificando o que parece ser a decisão de Obama de mandar matar o terrorista saudita. Fazer concessões não implica capitular. Apesar de o senso jurídico comum flertar permanentemente com a lei de talião, ele pode, dentro de certos limites, ser modificado pela cultura. Menos de 200 anos atrás, a pena cabível para um ladrão de cavalos no velho oeste americano era a forca --e ninguém discutia. Hoje, acho que nem os texanos vão tão longe. Duvido que roubar um cavalo por lá renda mais do que 30 anos.
Brincadeiras à parte, receio que Barack Obama, que foi professor de Direito Constitucional na prestigiosa Universidade de Chicago, embora tenha dado um passo importante para a reeleição, desperdiçou uma excelente oportunidade de civilizar um pouco mais os EUA e o mundo. Acho que, no caso específico de Bin Laden, a prisão e o julgamento, apesar de todas as incertezas, representariam melhor serviço à Justiça do que a morte em circunstâncias pouco convincentes. Nunca é demais lembrar que a diferença fundamental entre o poder do Estado e o do gângster ou terrorista é que o primeiro é legitimado e limitado pela lei, enquanto o segundo se funda apenas na vontade do chefe. Ao que tudo indica, estamos diante da versão obamista do "esqueçam o que escrevi". 

Hélio Schwartsman. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/911306-o-fim-de-bin-laden.shtml
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Toda vítima de violência é perigosa


Não estou aqui para dizer que sou uma espécie de super-homem. Muito menos um exemplo a ser seguido, como muita gente diz por aí toda vez que me encontra. Passei 34 anos andando, e, logo depois que levei 9 tiros e fiquei paraplégico, não consegui entender o que estava acontecendo.

Minha mente não acompanhou a mudança que aconteceu no meu corpo, a paralisia. Costumo dizer que a sequela maior é a da cabeça. Caí em depressão profunda, o chamado fundo do poço. No início, encarei isso muito mal. Por isso não quero ser um herói, nem um coitado. Também não acredito que o aprendizado para a vida deve obrigatoriamente vir pela dor, como aconteceu comigo. Acredito que se aprende muito mais com o amor.

No entanto, é impressionante como o ser humano é capaz de se adaptar a tudo simplesmente pela necessidade de seguir adiante. Depois do choque da perda, quando a poeira baixa, a maioria das pessoas lesadas pela violência tem duas reações: ou se recolhe e vive com pânico, ou então passa a acreditar que é muito mais capaz de superar situações-limite do que todas as outras. Sem perceber, sentem-se poderosas porque sabem que conseguem suportar o insuportável, aquilo que ninguém em sã consciência aguentaria. Passam a ter mais coragem, perdem o medo, estão acima de qualquer coisa que possa acontecer — até porque nada pode ser pior do que aquilo que elas já viveram.


Os sobreviventes são pessoas perigosas. Não são heróis: seus atos são inconscientes. Mas são desafiadores, porque empurram as barreiras adiante. As relações passam para outro nível, onde não há mais limites. Esta característica pode ficar ainda mais acentuada em reincidentes, como eu.

Quando fui assaltado pela segunda vez, as agressões foram muito intensas. Levei socos na cabeça e nas costelas ao dizer que não poderia sair e entregar o carro aos bandidos porque não andava. Quando me arrancaram do carro, minhas pernas ficaram presas debaixo das rodas. Tentei me mover, mas notei que seria impossível. Pensei que seria arrastado. Isso só não aconteceu porque eles não sabiam dirigir meu carro, que é adaptado, e fugiram. Um deles ainda voltou para tirar minhas pernas debaixo das rodas. Toda esta situação não demorou mais do que dez minutos. E eu me mantive incrivelmente calmo. Uma espécie de apatia tomou conta de mim. Nem pensei na morte. Não pensei em nada — era como se nada de pior pudesse me acontecer, eu já estava no limite.

Esta quase ausência de medo acaba por tomar conta de outras esferas. Ao subir no palco, por exemplo, já não sinto mais aquele frio na barriga que sentia antes. Não fico mais inseguro ao estar ali para defender minha carreira, pois já passei por situações em que precisei defender minha vida. O que pode ser mais difícil?

Nunca vou esquecer de uma frase que ouvi de uma tenente da polícia, que me socorreu quando eu estava baleado. Na ambulância, eu tentei segurar em sua mão, pois queria sentir alguma presença humana naquele momento. Ela tirou a mão e me disse: “Sou paga para te ajudar e não para ter pena de você”. Foi então que eu senti que minha vida tinha mudado. Para sempre.

Marcelo Yuka é músico, compositor e ativista
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O homem nu


     Ao acordar, disse para a mulher:
     – Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
     – Explique isso ao homem – ponderou a mulher.
     Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar – amanhã eu pago.
     Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
     Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
     – Maria! Abre aí, Maria. Sou eu – chamou, em voz baixa.
     Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
     Enquanto isso, ouviu lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
     Não era. Refugiado no lanço de escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
     – Maria, por favor! Sou eu!
     Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão. Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
     – Ah, isso é que não! – fez o homem nu, sobressaltado.
     E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pelo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
     – Ah, isso é que não! – repetiu, furioso.
     Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: “Emergência: parar”. Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada d emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
     – Maria! Abre esta porta! – gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente, e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
     – Bom dia, minha senhora – disse ele, confuso. – Imagine que eu...
     A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
     – Valha-me Deus! O padeiro está nu!
     E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
     – Tem um homem pelado aqui na porta!
     Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que passava:
     – É um tarado!
     – Olha, que horror!
     – Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
     Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
     – Deve ser a polícia – disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
     Não era: era o cobrador da televisão.

      Fernando Sabino
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