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O lápis



O menino observava seu avô escrevendo em um caderno, e perguntou:
— Vovô, você está escrevendo algo sobre mim?
O avô sorriu, e disse ao netinho:
— Sim, estou escrevendo algo sobre você. Entretanto, mais importante do que as palavras que estou escrevendo, é este lápis que estou usando. Espero que você seja como ele, quando crescer.
O menino olhou para o lápis, e não vendo nada de especial, intrigado, comentou:
— Mas este lápis é igual a todos os que eu já vi. O que ele tem de tão especial?
— Bem, depende do modo como você olha. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir vivê-las, será uma pessoa de bem e em paz com o mundo, respondeu o avô.
— Primeira qualidade: assim como o lápis, você pode fazer coisas grandiosas, mas nunca se esqueça de que existe uma "mão" que guia os seus passos, e que sem ela o lápis não tem qualquer utilidade: a mão de Deus.
— Segunda qualidade: assim como o lápis, de vez em quando você vai ter que parar o que está escrevendo, e usar um "apontador". Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas ao final, ele se torna mais afiado. Portanto, saiba suportar as adversidades da vida, porque elas farão de você uma pessoa mais forte e melhor.
— Terceira qualidade: assim como o lápis, permita que se apague o que está errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos trazer de volta ao caminho certo.
— Quarta qualidade: assim como no lápis, o que realmente importa não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro dele. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você. O seu caráter será sempre mais importante que a sua aparência.
— Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida deixará traços e marcas na vida das pessoas, portanto, procure ser consciente de cada ação, deixe um legado, e marque positivamente a vida das pessoas.
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Eu vou querer o sorvete simples



Numa época em que um sorvete custava muito menos do que hoje, um menino de 10 anos entrou na lanchonete de um hotel e sentou-se a uma mesa.

Uma garçonete colocou um copo de água na frente dele.
 – Quanto custa um sundae? – ele perguntou.
 – 50 centavos – respondeu a garçonete.

O menino puxou as moedas do bolso e começou a contá-las.
– Bem, quanto custa o sorvete simples? ele perguntou.
A essa altura, mais pessoas estavam esperando por uma mesa e a garçonete perdendo a paciência, respondeu de maneira brusca:
– 35 centavos!

O menino, mais uma vez, contou as moedas e disse:
– Eu vou querer, então, o sorvete simples.

A garçonete trouxe o sorvete simples, a conta, colocou na mesa e saiu. O menino acabou o sorvete, pagou a conta no caixa e saiu.

Quando a garçonete voltou, ela começou a chorar à medida que ia limpando a mesa, pois ali, do lado do prato, tinham 15 centavos em moedas – ou seja, o menino não pediu o sundae porque ele queria que sobrasse a gorjeta da garçonete.
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Eu te ajudo



                                     
Há muita indiferença no mundo, mas ajudar as pessoas é uma das tarefas mais dignas e louváveis que o ser humano pode realizar.
Certo homem andou o dia todo pela cidade, procurando emprego. Muito cansado, parou em frente a um supermercado. Percebeu que um homem olhava para ele, parecia ser o dono. Aproximou-se e disse:
 – Amigo, estou andando o dia inteiro, não tenho nenhum dinheiro, mas estou com muita fome. O senhor poderia me dar algo para comer?
O homem do supermercado,  com um olhar de desprezo, o mediu dos pés a cabeça e disse:
– Eu não posso matar a fome de todos que batem a minha porta e  também não tenho culpa pela situação do povo.
O homem, muito triste, abaixou a cabeça e foi andando, sem forças e sem destino algum, até que chegou a uma praça. Sentou-se no banco e viu uma nota de 20 reais no chão. Subitamente, a pegou e olhou em volta. A nota poderia ser de uma outra pessoa que também estivesse precisando. Todavia, não havia mais ninguém .
Ele saiu da praça com o objetivo de comprar algo para comer. Mas seus passos foram logo interrompidos pelo barulho de algo que mais parecia um tiro.
Alarmado, viu, um pouco adiante, um vulto de um homem caído ao chão e outro mais adiante correndo. A vítima estava ensanguentada. Tinha sido um assalto e o ladrão atirou covardemente na vítima, após roubá -la.
– Socorro! – agonizava o homem caído ao chão.
– Eu te ajudo – respondeu o pobre senhor. – Espere um segundo.
Imediatamente, correu a um orelhão próximo, fez uma ligação para a emergência, e voltou até onde a vítima estava. Em seguida, rasgou a própria camisa e colocou-a sobre o ferimento para que a vítima não perdesse tanto sangue. E lá permaneceu até chegar o socorro.
Logo que a ambulância chegou, o homem foi levado às pressas ao hospital. Os médicos conseguiram salvar a vítima, mas reconheceram que, se aquele homem sem camisa não tivesse chamado a emergência a tempo, certamente o paciente teria morrido.
O paciente se recuperou, e queria agradecer ao senhor que lhe socorreu.
Mas nunca mais voltou a ver aquele homem generoso que rasgou a própria camisa para ajudá-lo, aquele que chamou o socorro no momento em que não havia ninguém na rua, o mesmo homem que lhe pediu um pouco de comida no dia em que foi assaltado.
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Acreditando na lenda pessoal



Um guerreiro da luz assume por inteiro sua lenda pessoal – a razão de sua vida. Seus companheiros comentam: “sua fé é admirável!”
O guerreiro fica orgulhoso por alguns momentos, e logo se envergonha do que escutou, porque não tem a fé que demonstra.
Neste momento seu anjo sussurra: “você é apenas um instrumento da luz. Não há motivos para vangloriar-se, nem para sentir-se culpado; há motivo apenas para cumprir seu destino”.
E o guerreiro da luz, consciente que é um instrumento, fica mais tranquilo e seguro.

Paulo Coelho
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Dever de casa e tarefa da escola

Professor particular, professor tutor, tia, avó que foi professora, horas obrigatórias de estudo etc. etc. etc.
Pai e mãe que chegam do trabalho e, em vez de se dedicarem ao relacionamento com o filho, vão estudar junto com ele. No início, com paciência para explicar tudo nos mínimos detalhes. Pouco tempo depois, sem paciência alguma e, não raramente, chegando aos gritos com o filho.
Tudo isso porque estamos chegando ao final do ano letivo e muitas crianças, por causa das notas, estão a perigo tanto do ponto de vista da escola quanto do ponto de vista dos pais.
Alguns pais me disseram que irão fazer o filho --e falo de crianças com menos de 11 anos-- estudar todos os dias com professores particulares para "recuperar" toda a matéria dada desde o início do ano. Só assim, me disseram, o filho conseguirá aprender a matéria apresentada agora, já no último bimestre.
Tenho pena dessas crianças. Em primeiro lugar, porque pais e escolas pensam que o processo de aquisição de conhecimento é igual ao de escalar um morro: antes de chegar ao topo seria preciso dar muitos passos.
Não: já sabemos há muito tempo que o conhecimento não exige pré-requisitos, ou seja, não é preciso aprender determinados temas para chegar a outros.
Essa ideia está ultrapassada, tanto quanto nossa organização escolar seriada que agrupa os alunos por idade.
Como diz Ken Robinson, autor inglês que trata da criatividade e da inovação em educação, a data de fabricação das crianças não é o que as agrupa quando se trata de aprendizagem do conhecimento. São seus ritmos e modos de aprendizagem.
Em nosso país, o mantra de que os pais zelosos devem acompanhar os estudos dos filhos não é questionado, tampouco problematizado.
Ponto para a nossa ideologia escolar, que consegue, desse modo, delegar aos pais tarefas que são da instituição de ensino. E como tem escola reclamando que os pais delegam a elas suas responsabilidades, não é?
O fato é que com a família em transição e a escola congelada seria preciso rediscutir as funções de ambas e, inclusive, criar as bases do que poderíamos chamar de "parceria escola-família".
O que os pais podem fazer para ajudar o filho que precisa reagir em sua vida escolar? Eles podem, por exemplo, ajudá-lo a entender que conhecimento exige esforço.
Uma ótima atitude a se tomar é organizar o dia do filho para que ele tenha horários de estudo --entre outras coisas-- e um local para fazer isso longe das tentações que costumam ser estimulantes para ele.
Insistir para que o filho "grude a bunda na cadeira" até conseguir estudar e focar sua atenção é outra atitude favorável que complementa a primeira.
Nem a escola ensina isso. Basta o estudante experimentar alguma dificuldade que ele pede para ir ao banheiro, tomar água etc. E a escola permite, ou seja, não ensina que aquela dificuldade pode ser superada com esforço e concentração.
Conversar com o filho a respeito da matéria que ele estuda, fazer perguntas que a escola não faz, ajudar o filho a fazer relações entre o tema e a vida ou mostrar a ele algumas dessas relações também incentivam bastante a criança a entender o que é que ela estuda, afinal.
Sim, os pais podem, como nós acabamos de ver, ajudar o filho em sua vida escolar, mas não como se fossem eles os professores. Podem ajudar como pais, que nem sequer precisam saber o conteúdo das lições.
Se não fosse assim, como é que tantas pessoas com pais analfabetos conseguiriam estudar?
Os pais devem ajudar ensinando a atitude diante do estudo. Simples assim. Mas é algo tão difícil de realizar quanto simples.

Rosely Sayão
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Mundo moderno, cérebro antigo

É tão fácil botar a culpa na internet, no mundo moderno, nas novas tecnologias, ou em tudo isso junto.
Falta de atenção é consequência de janelas demais piscando no monitor; abundância de informação é um convite à superficialidade; violência é resultado de videogames; falta de tempo é culpa de e-mails demais por responder. O estresse da vida moderna, portanto, é culpa... do mundo moderno.
Eu discordo. O problema não está no que o mundo moderno faz com nosso cérebro, e sim nas limitações que nosso cérebro sempre teve --e em como nós nos deixamos sucumbir a tentações e imposições que nos são apresentadas por meio das novas tecnologias.
Para começar, não entendo a queixa de que "a internet" reduziria nosso tempo de atenção sustentada e tornaria nosso conhecimento superficial.
Pelo contrário: jovens, hoje, são capazes de passar horas ininterruptas em frente a videogames ou em sites de busca que permitem a qualquer um se tornar um profundo conhecedor de política internacional ou de biologia das fossas abissais sem sair de casa.
É uma questão do uso que se escolhe fazer de um mundo inteiro agora acessível.
Falando de atenção, aliás: nós sempre fomos limitados a prestar atenção em apenas uma coisa de cada vez. É uma restrição, de fato, mas que tem enormes vantagens, já que a maior parte da informação disponível a cada instante é irrelevante, mesmo.
Por causa dessa limitação, sempre há mais informação disponível do que conseguimos processar --e isso não é culpa da internet. Sabendo dela, quem tem problemas para se manter focado pode se ajudar reduzindo o número de tarefas que disputam sua atenção a cada instante.
O mesmo vale para o e-mail e o estresse associado às demandas que nos fazem. Poder responder imediatamente a e-mails não significa ter que fazê-lo --embora seja fácil sucumbir à pressão externa e à cobrança, no dia seguinte, por uma resposta que, poucos anos atrás, só chegaria pelo correio no prazo de uma semana.
Como hoje a maioria de nós não precisa se estressar sobre a disponibilidade de alimento ou teto, sobra espaço para nos cobrarmos respostas imediatas a todas as demandas eletrônicas que nos fazem.
O problema continua sendo o mesmo: gerenciar estresses. A dificuldade é se convencer de que o mundo não acaba se você não responder a todos os e-mails ainda hoje --e, de preferência, não cobrar isso dos outros.



Suzana Herculano-Houzel
 
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