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Protegendo as crianças

Uma vez falei aqui contra a chamada lei da palmada e fiquei com medo de sofrer uma tentativa de linchamento. Falei contra a lei e não a favor da palmada, mas fui amplamente descrito como um primitivo nordestino, defensor da tortura de criancinhas. Então acho que devo esclarecer que apanhei bastante em pequeno e até admito que o muito que há de torto em minha cabeça possa ser ligado a essas tundas, que iam bastante além de palmadas, em detalhes que não me dá gosto lembrar. No meu currículo, arrolam-se chinelos, tamancos, cabos de escovas, palmatórias (não só em casa, mas também na escola da professora Madalena, em Itaparica), cinturões de todos os materiais, beliscões, puxavantes de orelha, um ocasional cachação e aparentados.
Contudo, embora tenha as naturais queixas, pois que apanhar nunca me pareceu boa coisa, não desejei vingar-me disso nem com os autores das surras, nem com seus descendentes através de mim. Continuei a me dar bem com meus pais até o fim da vida deles e jamais bati em meus filhos, nem sequer com palmadinhas. Aliás, minto. Uma vez, em Salvador, minha filha mais velha, então com uns 5 anos, aprontou tanto e tão incontrolavelmente, que eu também me descontrolei e dei um palmadaço nela. Primeiro e único, porque, assim que vi sua carinha subitamente aterrorizada pela surpresa violenta, me senti um espécie de monstro. Exagero, claro, mas continuo pessoalmente contra não só palmadas como qualquer castigo físico.
Além disso, agora compreendo que devo manifestar-me a favor da lei da palmada. Em primeiro lugar, somos um país que protege muito. Não há ninguém que não esteja protegido - jovens, idosos, mulheres, homossexuais, consumidores, corruptos com direito a foro especial e quem mais nos ocorrer. O menor de idade mesmo é protegido por todos os lados. Creio que é exemplar o caso de um menor que faça 18 anos no dia 10 e, durante um assalto no dia 9, mate o assaltado somente pelo prazer de experimentar o revólver novo. Já vi casos assim, ou piores, em reportagens de televisão. Como somos um país rigoroso quanto à aplicação da lei, o delegado, embora privadamente tenha convicção oposta, é, assim como o juiz, obrigado a fazer valer a norma. Dura lex, sed lex. Portanto, matar com 17 anos e 364 dias é, por assim dizer, permitido, não dá nada. Já matar aos 18 anos pode dar cana séria, ainda que raramente. É talvez oportuno lembrar o episódio havido em Brasília e noticiado nos jornais, em que um homem assassinou a namorada e, no dia seguinte, foi à delegacia, levando a arma e o cadáver, e confessou o crime. Deu lá seu depoimento e foi solto na hora. Eu não conto essas maravilhas a meus amigos estrangeiros porque eles não acreditam, nós somos um país abençoado demais.
Mas desculpem, saí do assunto. O assunto é a lei da palmada. Devo reconhecer que nunca vi o texto do projeto e só sei dele o que ouço e leio aqui e ali. Em meu favor, porém, posso alegar que, como praticamente todos nós, não sou bem cidadão, mas súdito. Esse negócio de dar penada em nossa própria vida não é para nós. Como ensina a história da lei de ficha limpa, o que nós queremos não tem nada a ver com o que fazem do País, a gente não tem nada que se meter. Eles resolvem as coisas e nós vamos sabendo aos poucos, isso quando interessa que a gente saiba, para poder fazer o que eles mandam.
Eu ia dizendo que parece ser meu dever manifestar-me a favor da lei da palmada, que estende a proteção estatal sobre uma categoria desamparada. Antigamente, as crianças podiam ser surradas, afogadas, esfoladas ou fritas, não havia lei que as protegesse. Agora, sim, agora haverá, com certeza também através de novos órgãos oficiais, novos especialistas, funcionários, verbas e assim por diante - os legisladores não esquecem essa prioridade nacional, a criação de postos de trabalho. E a rede não se limita ao Estado. Entram nela, por exemplo, sogras e vizinhos. Calculem quantas sogras, por esse Brasil afora, fiscalizarão as mulheres de seus queridos filhos, essas desmazeladas sem educação doméstica. Não haverá palmada que não seja denunciada à polícia e prevejo que esse mar de proteção poderá espraiar-se de tal forma que teremos delegacias das palmadas e um Disque Palmada 24 horas por dia.
Tenho um pouco de preocupação, é bem verdade, com a obediência à lei, notadamente por pais e mães recalcitrantes ou de outras culturas. Fico pensando na possibilidade de certas situações. Imagino que, denunciada por ter dado meia dúzia de palmadas no Ranulfinho, a mãe do Ranulfinho deva receber a visita de um psicólogo oficial, que tentará demonstrar-lhe a inadequação e inaceitabilidade científica e legal do castigo físico. Ao que a mãe do Ranulfinho, que sempre foi da pá virada e ostenta cabelinhos na venta, diz que o psicólogo é psicólogo lá pras negas dele e que o sacaneta do Ranulfinho vai apanhar toda vez que tornar a abrir a geladeira, morder um pedaço de tudo o que tem lá dentro, deixar a porta aberta e emporcalhar a cozinha toda. Como de fato, dias depois há nova denúncia e novamente a mãe do Ranulfinho manda o governo pastar. Para encurtar a história, virá depois do psicólogo um psiquiatra, a mãe do Ranulfinho dirá que o psiquiatra se meta com a mãe dele e reincidirá, não restando recurso, senão cadeia mesmo. E, já que o pai do Ranulfinho apoia sua mulher, far-se-á a retirada da guarda do Ranulfinho e seus três irmãozinhos. Naturalmente que serão separados, porque ninguém poderá ficar com a guarda dos quatro. E, se não houver parentes ou amigos dispostos, o Estado tomará a si a guarda deles e, enquanto os pais mofam na justa cadeia, eles serão criados na mesma instituição modelar em que foi várias vezes confinado o menor que matou dois e feriu quatro, para experimentar o revólver. O Brasil se aperfeiçoa cada vez mais, o Ranulfinho é um menino de sorte.
João Ubaldo Ribeiro



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Nada a esconder


 “Privacidade” é uma palavra recente na língua portuguesa. Quem a procurar num dicionário velho, aí de seus 30 ou 40 anos para cima, não vai encontrá-la. Antigamente se usava “intimidade”, que, na minha opinião, quebrou bem o galho durante muito tempo. Não obstante, do mesmo jeito que muitas outras palavras nossas, “intimidade” teve todos os seus anos de bons serviços ignorados e foi amplamente substituída, via Estados Unidos, por uma inglesa de som e uso considerados chiques, como ocorre entre nós em relação a qualquer coisa em inglês. “Privacidade”, aportuguesamento de “privacy”, já foi naturalizada e correm bem longe os tempos em que seria xingada de anglicismo e, se usada numa prova escrita, baixaria a nota. A bem da verdade, ela não deixa de comportar-se como uma boa cidadã brasileira e talvez mereça a popularidade que obteve, talvez nós estivéssemos precisando dela mesmo.

Com a palavra, tudo bem, vida longa para ela, mas a condição que ela designa pertence cada vez mais ao passado. Ou melhor, já pertence ao passado, assim como a agora vingada “intimidade”. Juntas, vão fazer parte das recordações de antigamente - o tempo em que existia um negócio chamado privacidade ou intimidade, o qual, suspeito eu, vai ter que ser explicado à geração que hoje é bebê. E, a julgar pelo que vejo em torno, muita gente, talvez a maioria, adere alegremente ao desprestígio crescente da privacidade e de sua colega intimidade. Não só não damos importância ao que fazem para violar nossa privacidade, como nos esforçamos para abdicar dela.

Há quem acredite que certas áreas, como a vida financeira e econômica de cada um, ainda são protegidas. Faz uns três dias, dei uma espiada na relação dos que têm (ou tinham, não vem ao caso, pois indica a experiência que voltarão a ter) acesso a dados dos contribuintes junto à Receita Federal e havia até estagiários. Não custa imaginar que estaria perto a autorização dos síndicos de edifícios de apartamentos, para fuçar a vida dos condôminos. Para não lembrar que já se falou em tudo quanto é tipo de vazamento na Receita Federal. Mas vamos continuar dando um crédito de confiança, que, aliás, é o único crédito nosso que podemos dar à Receita, porque o resto ela já tomou.

Até os bancos suíços, onde qualquer grande ladrão, traficante de droga ou governante corrupto tinha seu dinheiro imundo recebido com circunspecção, recato e maneiras finas, sem perguntas deseducadas e sem impostos penosos e, acima de tudo, sob sigilo impenetrável, até esses vêm sendo atacados. O venerável princípio segundo o qual a respeitabilidade de um homem é definida por quantos milhões de dólares ele tem está sofrendo golpes rudes, partidos notadamente, segundo leio aqui, dos americanos. O fisco americano, diz aqui, está torcendo o braço dos bancos suíços para que liberem dados de cidadãos sob sua jurisdição. Há ameaças de brecar as operações desses bancos nos Estados Unidos, se eles não atenderem aos pedidos de liberação. Verdade que rico ri à toa e que muitos espertos vão conseguir safar-se, mas o mundo não será mais o mesmo sem bancos suíços para higienizar, preservar e fazer render dinheiro sujo. Quanto a quem tem dinheiro aqui mesmo, sabe-se que a informação já está fartamente acessível, não só para os muitos que podem vê-la na Receita Federal, como em camelôs em São Paulo e no Rio, em CDs, ou, se se desejar gastar mais um pouco, documentos já impressos. Ou então se usa alguém de prestígio para mandar o banco quebrar o sigilo bancário do vizinho, do sogro, do marido ou do patrão. Dá para fazer numa boa, como já fez um ex-ministro cujo nome me escapa no momento, mas vocês hão de recordar.

Fora das finanças, acho que a coisa está bem mais aberta, porque a colaboração geral é entusiástica. Nas chamadas redes sociais na internet, milhões (ou bilhões, sei lá) de devotos acreditam que estão recebendo serviços de graça e que, por conseguinte, os donos dessas redes estão ganhando quaquilhões de dólares extraindo-os do ar e não dos bolsos da freguesia. Eles estão, claro, é faturando anúncios e, acima de tudo, coletando dados pessoais de toda espécie, que lhes proporcionam estratégias de mercado capazes não somente de vender a bagulhada que produzem ou a que se vinculam direta ou indiretamente, como também de criar necessidades antes inexistentes, para que se comerciem ainda mais bagulhos, num processo interminável. Não custa nada lembrar um axioma conhecido em cibernética: “Informação é controle.”

Grande parte dessa massa manipulada quer ser manipulada, porque expõe, sua vida a torto e a direito, em proporções que não parecem conhecer limite. Não é apenas na internet que se divulgam intimidades antes preservadas, é em qualquer lugar. Já ouvi casais tendo a famosa discussão da relação, em celulares que, no modo viva-voz, faziam com que os circunstantes escutassem tudo. E senhoras e senhorinhas entrevistadas discorrem a leitores ou espectadores sobre posições sexuais, preferências de parceiros, higiene pessoal ou depilação púbica e perianal, quando não tomam parte em mesas-redondas de depoimentos pessoais íntimos - o que antes era confissão hoje é papo casual.

Segredos antigos desaparecem, velhos mistérios não são mais arcanos, não há mais inocências a proteger. Para evitar a exposição ao que se exibe em toda parte, só recolhendo o bebê a um mosteiro trapista, logo após o desmame, aos 6 meses de idade. Não se pode censurar livros recomendados a crianças ou adolescentes, pelo motivo descabido de que mostram aspectos de um mundo vivido por todos, inclusive por eles, que veem bem mais do que os adultos suspeitam. Não há como esconder mais nada. E, dessa forma, é preciso que eles também tenham a chance de ver este mundo através da sensibilidade literária. Principalmente porque isso os ajudará a compreender que há escolhas.
João Ubaldo Ribeiro
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A torcida da sua vida

              
Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você. Tinha gente que torcia para você ser menino. Outros torciam para você ser menina. Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai. Estavam torcendo para você nascer perfeito. Daí continuaram torcendo. Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela primeira palavra, pelo primeiro passo. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E o primeiro gol então? E de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. Começou a torcer até para um time. Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce diferente de você. Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão. Eles também estavam torcendo para você ser bacana. Nessas horas, você só torcia para não ter nascido. E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido. Torceu para seus irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir. E quando os hormônios começaram a torcer, torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso. Depois começou a torcer pela sua liberdade. Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã, para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser médico, músico, advogado. Na dúvida, torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. Seus pais torciam para passar logo essa fase. No dia do vestibular, uma grande torcida se formou. Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por você. Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita, esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ela. Primeiro, torceu para ela não ter outro. Torceu para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro. Descobriu que ela torcia igual a você. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho. Torceram para ganhar a geladeira, o micro-ondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida. Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tinha muita gente torcendo por ele. Mesmo com toda essa torcida, pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Mas muita gente ainda torce por você!

Carlos Drummond de Andrade
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Subir pelo lado que desce


Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce.  Ouvindo esta frase, imaginei qualquer pessoa nessa acrobacia que as crianças fazem ou tentam fazer: escalar aqueles degraus que nos puxam inexoravelmente para baixo. Perigo, loucura, inocência, ou uma boa metáfora do que fazemos diariamente?  Poucas vezes me deram um símbolo tão adequado para a vida, sobretudo naqueles períodos difíceis em que até pensar em sair da cama dá vontade de desistir. Tudo o que quereríamos era taparmos a cabeça e dormirmos, sem pensarmos em nada, fingindo que não estamos nem aí…  Porque Tanatos, isto é, a voz do poço e da morte, nos convoca a cada minuto para que, enfim, nos entreguemos e acomodemos. Só que acomodar-se é abrir a porta a tudo aquilo que nos faz cúmplices do negativo. Descansaremos, sim, mas tornando-nos filhos do tédio e amantes da pusilanimidade, personagens do teatro daqueles que constantemente desperdiçam os seus próprios talentos e dificultam a vida dos outros. E o desperdício da nossa vida, talentos e oportunidades é o único débito que no final não se poderá saldar: estaremos no arquivo-morto. Não que não tenhamos vontade ou motivos para desistir: corrupção, violência, drogas, doença, problemas no emprego, dramas na família, buracos na alma, solidão no casamento a que também nos acomodamos… tudo isso nos sufoca. Sobretudo, se pertencermos ao grupo cujo lema é: Pensar, nem pensar… e a vida que se lixe.  A escada rolante chama-nos para o fundo: não dou mais um passo, não luto, não me sacrifico mais. Para quê mudar, se a maior parte das pessoas nem pensa nisso e vive da mesma maneira, e da mesma maneira vai morrer? Não vive (nem morrerá) da mesma maneira. Porque só nessa batalha consigo mesmo, percebendo engodos e superando barreiras, podemos também saborear a vida. Que até nos surpreende quando não se esperava, oferecendo-nos novos caminhos e novos desafios.  Mesmo que pareça quase uma condenação, a idéia de que viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce é que nos permite sentir que afinal não somos assim tão insignificantes e tão incapazes.  Então, vamos à escada rolante: aqui e ali até conseguimos saltar degraus de dois em dois, como quando éramos crianças e muito mais livres, mais ousados e mais interessantes.  E porque não? Na pior das hipóteses, caímos, magoamo-nos por dentro e por fora, e podemos ainda uma vez… recomeçar.

Lya Luft
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Educação de quarto mundo


No meio da tragédia do Haiti, que comove até mesmo os calejados repórteres de guerra, levo um choque nacional. Não são horrores como os de lá, mas não deixa de ser um drama moral. O relatório "Educação para todos", da Unesco, pôs o Brasil na 88ª posição no ranking de desenvolvimento educacional. Estamos atrás dos países mais pobres da América Latina, como o Paraguai, o Equador e a Bolívia. Parece que em alfabetizar somos até bons, mas depois a coisa degringola: a repetência média na América Latina e no Caribe é de pouco mais de 4 %. No Brasil, é de quase 19%.
No clima de ufanismo que anda reinando por aqui, talvez seja bom acalmar-se e parar para refletir. Pois, se nossa economia não ficou arruinada, a verdade é que nossas crianças brincam na lama do esgoto, nossas famílias são soterradas em casas cuja segurança ninguém controla, nossos jovens são assassinados nas esquinas, em favelas ou condomínios de luxo somos reféns da bandidagem geral, e os velhos morrem no chão dos corredores dos hospitais públicos. Nossos políticos continuam numa queda de braço para ver quem é o mais impune dos corruptos, a linguagem e a postura das campanhas eleitorais se delineiam nada elegantes, e agora está provado o que a gente já imaginava: somos péssimos em educação.
Pergunta básica: quanto de nosso orçamento nacional vai para educação e cultura? Quanto interesse temos num povo educado, isto é, consciente e informado - não só de seus deveres e direitos, mas dos deveres dos homens públicos e do que poderia facilmente ser muito melhor neste país, que não é só de sabiás e palmeiras, mas de esforço, luta, sofrimento e desilusão?
Precisamos muito de crianças que saibam ler e escrever no fim da 1ª série elementar; jovens que consigam raciocinar e tenham o hábito de ler pelo menos jornal no 2º grau; universitários que possam se expressar falando e escrevendo, em lugar de, às vezes com beneplácito dos professores, copiar trabalhos da internet. Qualidade e liberdade de expressão também são pilares da democracia. Só com empenho dos governos, com exigência e rigor razoáveis das escolas - o que significa respeito ao estudante, à família e ao professor - teremos profissionais de primeira em todas as áreas, de técnicos, pesquisadores, jornalistas e médicos a operários. Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso? Quando empregarmos em educação uma boa parte dos nossos recursos, com professores valorizados, os alunos vendo que suas ações têm consequências, como a reprovação - palavra que assusta alguns moderníssimos pedagogos, palavra que em algumas escolas nem deve ser usada, quando o que prejudica não é o termo, mas a negligência. Tantos são os jeitos e os recursos favorecendo o aluno preguiçoso que alguns casos chegam a ser bizarros: reprovação, só com muito esforço. Trabalho ou relaxamento têm o mesmo valor e recompensa.
Sou de uma família de professores universitários. Exerci o duro ofício durante dez anos, nos quais me apaixonei por lidar com alunos, mas já questionava o nível de exigência que podia lhes fazer. Isso faz algumas décadas: quando éramos ingênuos, e não antecipávamos ter nosso país entre os piores em educação. Quando os alunos ainda não usavam celular e iPhone na sala de aula, não conversavam como se estivessem no bar nem copiavam seus trabalhos da internet - o que hoje começa a ser considerado normal. Em suma, quando escola e universidade eram lugares de compostura, trabalho e aprendizado. O relaxamento não é geral, mas preocupa quem deseja o melhor para esta terra.
Há gente que acha tudo ótimo como está: os que reclamam é que estão fora da moda ou da realidade. Preparar para as lidas da vida real seria incutir nos jovens uma resignação de usuários do SUS, ou deixar a meninada "aproveitar a vida": alguém pode me explicar o que seria isso?
No clima de ufanismo que anda reinando por aqui, talvez seja bom acalmar-se e parar para refletir. Pois, se nossa economia não ficou arruinada, a verdade é que nossas crianças brincam na lama do esgoto, nossas famílias são soterradas em casas cuja segurança ninguém controla, nossos jovens são assassinados nas esquinas, em favelas ou condomínios de luxo somos reféns da bandidagem geral, e os velhos morrem no chão dos corredores dos hospitais públicos. Nossos políticos continuam numa queda de braço para ver quem é o mais impune dos corruptos, a linguagem e a postura das campanhas eleitorais se delineiam nada elegantes, e agora está provado o que a gente já imaginava: somos péssimos em educação.
Pergunta básica: quanto de nosso orçamento nacional vai para educação e cultura? Quanto interesse temos num povo educado, isto é, consciente e informado - não só de seus deveres e direitos, mas dos deveres dos homens públicos e do que poderia facilmente ser muito melhor neste país, que não é só de sabiás e palmeiras, mas de esforço, luta, sofrimento e desilusão?
Precisamos muito de crianças que saibam ler e escrever no fim da 1ª série elementar; jovens que consigam raciocinar e tenham o hábito de ler pelo menos jornal no 2º grau; universitários que possam se expressar falando e escrevendo, em lugar de, às vezes com beneplácito dos professores, copiar trabalhos da internet. Qualidade e liberdade de expressão também são pilares da democracia. Só com empenho dos governos, com exigência e rigor razoáveis das escolas - o que significa respeito ao estudante, à família e ao professor - teremos profissionais de primeira em todas as áreas, de técnicos, pesquisadores, jornalistas e médicos a operários. Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso? Quando empregarmos em educação uma boa parte dos nossos recursos, com professores valorizados, os alunos vendo que suas ações têm consequências, como a reprovação - palavra que assusta alguns moderníssimos pedagogos, palavra que em algumas escolas nem deve ser usada, quando o que prejudica não é o termo, mas a negligência. Tantos são os jeitos e os recursos favorecendo o aluno preguiçoso que alguns casos chegam a ser bizarros: reprovação, só com muito esforço. Trabalho ou relaxamento têm o mesmo valor e recompensa.
Sou de uma família de professores universitários. Exerci o duro ofício durante dez anos, nos quais me apaixonei por lidar com alunos, mas já questionava o nível de exigência que podia lhes fazer. Isso faz algumas décadas: quando éramos ingênuos, e não antecipávamos ter nosso país entre os piores em educação. Quando os alunos ainda não usavam celular e iPhone na sala de aula, não conversavam como se estivessem no bar nem copiavam seus trabalhos da internet - o que hoje começa a ser considerado normal. Em suma, quando escola e universidade eram lugares de compostura, trabalho e aprendizado. O relaxamento não é geral, mas preocupa quem deseja o melhor para esta terra.
Há gente que acha tudo ótimo como está: os que reclamam é que estão fora da moda ou da realidade. Preparar para as lidas da vida real seria incutir nos jovens uma resignação de usuários do SUS, ou deixar a meninada "aproveitar a vida": alguém pode me explicar o que seria isso?
Lya Luft
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O Som da Inconveniência

– João, queríamos, antes de tudo, agradecê-lo muito por nos receber. Isso é simplesmente inacreditável! Devo dizer que nosso trabalho foi muito influenciado pelo seu, sempre aprendemos muito com seus discos…
– Gentileza sua … eu que tenho aprendido demais com vocês, em especial com a forma como lidam com a plateia.
– Sério?!
– Claro! Essa coisa de não permitir baterem palmas antes dos 30 minutos de show… de onde vocês tiraram isso?  É, é… simplesmente genial!
– Ouviu, Erlend? O pai da Bossa Nova acha que somos geniais!
– É. Eu mesmo nunca tive coragem de propor um negócio desses, não sei porquê. Outra: pedirem para estalar os dedos, ao invés de bater palmas para acompanhar as músicas? Fantástico!
– Obrigado! Aliás, quem aguenta tantas palmas desencontradas? Chega até a doer nos ouvidos.
– Agora eu queria saciar uma curiosidade minha: como é que vocês lidam com as tosses?
– Bem, a tosse é de fato um problema complicado, mas não sei se temos algo pensado para isso ainda…
– … Porque a tosse vem de dentro, né? Quer dizer, o sujeito supostamente não consegue controlar a própria tosse, ou vocês acham que a tosse pode ser administrada, colocando, por exemplo, um cartaz assim ó: “proibido tossir nos primeiros 15 minutos”? Porque aí, vejam bem, se todo mundo deixar pra tossir junto num mesmo momento, essa tossissão toda pode ser até introduzida no roteiro do show, tipo “pausa de 5 minutos para tossir”.
– A ideia é boa realmente, mas não sei se funcionaria com o público do Kings of Convenience.
– Ah é? E por quê?
–  Porque talvez o burburinho dos que não estão tossindo, ao coibir os que porventura tossirem no momento impróprio, poderia gerar um efeito sonoro pior do que a própria tosse em si.
– Entendo. É, pode ser.
(…)
– João, tudo bem aí?
– Sim, é só que eu estava pensando sobre uma ideia que tive no outro dia.
– Qual?
– Sabe aqueles fones de ouvidos que inventaram para escutar música dentro do avião? Eles funcionam porque emitem uma frequência idêntica ao barulho das turbinas, só que inversa, tendo, como resultado, a anulação do ruído. Imagina se fizessem uma engenhoca dessas para projetar nas caixas de som durante um show?
– Acho que não entendi.
– É simples. Junto com o canal de áudio que sai do palco, vai para o público uma camada sonora invertida, contendo som de tosse, de espirro, de pigarro, de papel de balinha abrindo, de risada, de conversa baixa e alta, de garrafas e copos tilintando no bar, de passos no corredor, de bunda se ajeitando na cadeira. Daí, essa frequência enviada se anularia com a produzida pela plateia, e o show não teria qualquer interferência. Imaginem que beleza não seria isso!? É como tocar no Espaço! Vocês acham que alguém lá na Noruega pode desenvolver um troço desses?
– O que acha, Eirik? Eu mesmo não saberia dizer se isso é fisicamente viável…
– Tá certo. Bom, mas se vocês puderem perguntar por lá, agradeço. Os noruegueses são muito bons nessas coisas de tecnologia.
– João, nossa conversa está ótima, mas gostaria de propor, se isso não for incomodá-lo, de subirmos até aí, no seu apartamento. Porque agora começou a chover e não teremos mais como falar no interfone sem nos molhar.
(…)
– João? Você ainda está aí?
Bruno Medina
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A aliança

     Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De
qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.
     Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jangal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar.
Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.
     - Você não sabe o que me aconteceu!
     - O quê?
     - Uma coisa incrível.
     - O quê?
     - Contando ninguém acredita.
     - Conta!
     - Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?
     - Não.
     - Olhe.
     E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança.
     - O que aconteceu?
     E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A  aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.
     - Que coisa - diria a mulher, calmamente.
     - Não é difícil de acreditar?
     - Não. É perfeitamente possível.
     - Pois é. Eu...
     - SEU CRETINO!
     - Meu bem...
     - Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa.
Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.
     - Mas, meu bem...
     - Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!
     E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações.
Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito transito. Por que
essa cara? Nada, nada. E, finalmente:
     - Que fim levou a sua aliança?
     E ele disse:
     - Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.
     Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez
minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava um crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.
     - O mais importante é que você não mentiu pra mim.
     E foi tratar do jantar.

Luis Fernando Veríssimo
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Ensaio sobre a amizade

     Que qualidade primeira a gente deve esperar de alguém com quem pretende um relacionamento? Perguntou-me o jovem jornalista, e lhe respondi: aqueles que se esperaria do melhor amigo. O resto, é claro, seriam os ingredientes da paixão, que vão além da amizade. Mas a base estaria ali: na confiança, na alegria de estar junto, no respeito, na admiração. Na tranquilidade. Em não poder imaginar a vida sem aquela pessoa. Em algo além de todos os nossos limites e desastres.
     Talvez seja um bom critério. Não digo de escolha, pois amor é instinto e intuição, mas uma dessas opções mais profundas, arcaicas, que a gente faz até sem saber, para ser feliz ou para se destruir. Eu não quereria como parceiro de vida quem não pudesse querer como amigo. E amigos fazem parte de meus alicerces emocionais: são um dos ganhos que a passagem do tempo me concedeu.  Falo daquela pessoa para quem posso telefonar, não importa onde ela esteja nem a hora do dia ou da madrugada, e dizer: “Estou mal, preciso de você”. E ele ou ela estará comigo pegando um carro, um avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente ficando ao telefone o tempo necessário para que eu me recupere, me reencontre, me reaprume, não me mate, seja lá o que for.
     Mais reservada que expansiva num primeiro momento, mais para tímida, tive sempre muitos conhecidos e poucas, mas reais, amizades de verdade, dessas que formam, com a família, o chão sobre o qual a gente sabe que pode caminhar. Sem elas, eu provavelmente nem estaria aqui. Falo daquelas amizades para as quais eu sou apenas eu, uma pessoa com manias e brincadeiras, eventuais tristezas, erros e acertos, os anos de chumbo e uma generosa parte de ganhos nesta vida. Para eles não sou escritora, muito menos conhecida de público algum: sou gente.
     A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele mas sem
ônus do ciúme – o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. Ser amigo é rir junto, é dar o ombro para chorar, é poder criticar (com carinho, por favor), é poder apresentar namorado ou namorada, é poder aparecer de chinelo de dedo ou roupão, é poder até brigar e voltar num minuto depois, sem ter de dar explicação nenhuma. Amiga é aquela a quem se pode ligar quando a gente está com febre e não quer sair para pegaras crianças na chuva: a amiga vai, e pega junto com as dela ou até mesmo se nem tem criança naquele colégio.
     Amigo é aquele a quem a gente recorre quando se angustia demais, e ele chega confortando, chamando de “minha gatona” mesmo que a gente esteja um trapo. Amigo, amiga, é um dom incrível, isso eu soube desde cedo, e não viveria sem eles. Conheci uma senhora que se vangloriava de não precisar de amigos: “Tenho meu marido e meus filhos, e isso me basta”. O marido morreu, os filhos seguiram sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis, injuriada como se o destino tivesse lhe pregado uma peça. Mais uma vez se queixou, e nunca tive coragem de lhe dizer, àquela altura, que a vida é uma construção, também a vida afetiva. E que amigos não nascem do nada como frutos do acaso: são cultivados com... amizade. Sem esforço, sem adubos especiais, sem método nem aflição: crescendo como crescem as árvores e as crianças  quando não lhes faltam nem luz nem espaço nem afeto.
     Quando em certo período o destino havia aparentemente tirado de baixo de mim todos os tapetes e perdi o prumo, o rumo, o sentido de tudo, foram amigos, amigas, e meus filhos, jovens adultos já revelados amigos, que seguraram as pontas. E eram pontas ásperas aquelas. Aguentei, persisti, e continuei amando a vida, as pessoas e a mim mesma (como meu amigo amado Erico Verissimo, “eu me amo mas não me admiro”) o suficiente para não ficar amarga. Pois, além, de acreditar no mistério de tudo o que nos acontece, eu tinha aqueles amigos. Com eles, sem grandes conversas nem palavras explícitas, aprendi solidariedade, simplicidade, honestidade, e carinho.
     Nesta página, hoje, sem razão especial nem data marcada, estou homenageando aqueles, aquelas, que têm estado comigo seja como for, para o que der e vier, mesmo quando estou cansada, estou burra, estou irritada ou desatinada, pois às vezes eu sou tudo isso, ah!, sim. E o bom mesmo é que na amizade, se verdadeira, a gente não precisa se sacrificar nem compreender nem perdoar nem fazer malabarismos sexuais nem inventar desculpas nem esconder rugas ou tristezas. A gente pode simplesmente ser: que alívio, neste mundo complicado e desanimador, deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo. Pois o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezes irritante; pode se afastar, mas sabemos que retorna; ele nos aguenta e nos chama, nos dá impulso e abrigo, e nos faz ser melhores: como o verdadeiro amor.

Lya Luft
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Com Fernando Sabino em Sete Lagoas

A funcionária da escola voltou-se para a mãe, intrigada:
- A senhora encheu a ficha de um de seus dois filhos botando a mesma data de nascimento do outro. São gêmeos?
- Gêmeos de pai.
- Gêmeos de pai? Que história é essa?
- São filhos do meu marido - explicou a mãe. Um é meu e um é da outra. Nasceram no mesmo dia, logo, são gêmeos de pai.
2.
Chegando ao hotel, pedi um quarto de solteiro, depois de me certificar do preço. Subi, me acomodei e só então percebi que havia algum engano: o quarto era imenso, com uma cama de casado e duas de solteiro - provavelmente muito mais caro do que eu pretendia. Não tive dúvidas, voltei à recepção.
- Houve algum engano, pedi um quarto simples e o senhor me deu um com três camas.
O homem refletiu um instante e aconselhou-me polidamente:
- Não precisa usar as três: use uma e ignore as outras.
3.
Essas duas minicrônicas não são minhas, são de Fernando Sabino e estão no seu Livro Aberto, páginas que ele reuniu em um volume no fim da vida. Foi a última coisa que publicou, antes de morrer em 2004. Esse era o Sabino observador das mínimas coisas de nosso cotidiano. O cronista que lemos, invejamos e gostaríamos de ser. Conto essas duas historinhas para dizer que elas foram relembradas semana passada em Sete Lagoas, Minas Gerais, durante o Literata 2, um festival inteiro dedicado a ele. Foi minha última viagem literária deste ano, a de número 44, e fiquei contente por ter ido falar de Sabino. Olhem que foi um time considerável que baixou naquela cidade mineira, que se espreguiça em torno de um lago central (disseram-me que dos sete só restam seis) parecido com a Pampulha de Belo Horizonte. Ali se fabricam os caminhões Iveco e foi a empresa que patrocinou o Literata, bela forma de se debruçar sobre cultura.
Num dia, partiam Ivan Angelo e Fabrício Carpinejar e chegava José Eduardo Agualusa. No outro subiu ao palco o Humberto Werneck e no dia seguinte ali estavam João Paulo Cuenca e Paulo Roberto Pires. Depois se debateu com Fernando Paixão e Luciana Villas Boas. E ainda se ouviu cantar Verônica, filha de Sabino, e o jazz de Luis Fernando Verissimo, que também falou, ele que não é disso. Desde o primeiro dia, na primeira fila esteve Bernardo, filho de Fernando, grande como o pai, emotivo, batalhando pela conservação da memória daquele que foi dos nossos cronistas maiores.
4.
Foi graças ao Humberto Werneck, companheiro de crônica, aqui, no Estadão, imperdível aos domingos, que tive esse breve reencontro com Fernando Sabino, semana passada. Falar nisso, deu gosto participar de uma mesa em que Werneck foi mediador, entre Mauro Ventura, jornalista de O Globo e autor de O Mais Triste Espetáculo da Terra, sobre o incêndio de um circo em Niterói, em 1961, tragédia que terminou com 503 mortos, algo inconcebível. Werneck é calmo, não exibido, seguro, repleto de informações, fala, deixa falar, coloca a pessoa à vontade, joga o assunto, tira quando acha necessário, levanta outras bolas. Muitos não sabem, mas existe mediador que não para de falar, dá o show dele no palco, interrompe respostas; e há aquele que fica ouvindo, gostosamente, como se as falas fossem para ele se divertir ou chorar. Pegar um desses é pior, a gente fica perdida, o mediador é o maestro que nos conduz.
5.
Companheiros de viagem foram Ivan Angelo e Werneck. Sente-se no meio de dois mineiros e os casos desfilam. O que eles sabem de histórias, de bastidores, de curiosidades. Bom humor, acima de tudo. Ironias com todo mundo, inclusive para com eles mesmos. Das origens do Jornal da Tarde, o maior refúgio de mineiros que já existiu, até o governo do Aécio. Discordaram um pouco quando o carro, indo de Confins para Sete Lagoas, passou por dentro de Belo Horizonte e cada um achava que a rua era uma, e era outra. De qualquer modo, como cicerones, me contavam sobre este bairro, este restaurante, esta galinha de cabidela, me colocando à vontade. Terei de levá-los a Araraquara para retribuir.
6.
Falar de Sabino foi um reencontro comigo mesmo, com as manhãs de domingo nos anos 50, quando a Manchete chegava à banca do Nelson Rossi em Araraquara e era preciso correr antes que a revista se esgotasse. Era linda a Manchete, colorida, bom papel (diferente daquele papel marrom de O Cruzeiro, esquisito), boas fotos, belas mulheres. Se O Cruzeiro tinha Rachel de Queiroz, a Manchete tinha Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino. Leituras que o Jurandyr Gonçalves Ferreira, professor de português, modernamente recomendava. Inclusive, ele levava a crônica de Sabino para a aula e comentava, analisava.
O choque que foi O Encontro Marcado em 1956! Todo meu grupo leu, estarrecido, aquela era a nossa história, da nossa geração, nossa revolta contra a família, a religião, a pasmaceira, o provincianismo, a mesmice. Aqueles mineiros eram os mesmos vitelloni de Fellini (Os Boas-Vidas) e os desesperados de Araraquara.
7.
Durante duas horas, ali em Sete Lagoas, nós três contamos nossos encontros com Sabino, as histórias que vivemos com ele ou ouvimos contar sobre. Conheci Fernando Sabino nos anos 70, fizemos algumas viagens juntos por este Brasil. Alto, expansivo, cheio de casos, apaixonadíssimo pelo que fazia, divertido, ainda que tenha morrido na depressão por motivos vários, um deles aquela maldita Zélia, que infernizou a vida de todos nós. Uma vez, perto de Ponta Grossa, Fernando mandou parar o carro diante de um boteco. Entramos, ele perguntou ao dono de que dia eram aqueles pasteis. De hoje, fritei agorinha mesmo, respondeu o homem ansioso para vender. Pena, respondeu Sabino. Se fossem de ontem... O sujeito não podia saber que ele só gostava de pastel amanhecido.
Outra vez, fui encontrá-lo em Curitiba, num hotel, dali partiríamos para o interior. Ao chegar, ele me apresentou um homem magro, de óculos, um tanto soturno, porém simpático. Ao sairmos, Sabino apertou meu braço, disse ao meu ouvido: "Oi, Ignácio, segurei o Dalton Trevisan o tempo inteiro, ele queria muito te conhecer". Mauro Ventura, que já tinha ouvido histórias semelhantes, comentou comigo: "Sabino era um cavalheiro, um diplomata, ajeitava tudo, mineiramente. Quem garante que ele não segurou o Dalton dizendo: Vem vindo aí um escritor louco para te conhecer?"
Ignácio de Loyola Brandão 
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Vence o candidato negro. E então, nos EUA...

     O romance O Presidente Negro (ou O Choque das Raças), publicado por Monteiro Lobato em 1926, previa, para o ano de 2228, uma eleição presidencial nos Estados Unidos em que concorriam um negro e uma mulher, além do homem branco candidato à reeleição. Venceu o negro, ficando a mulher em segundo lugar. Como dizia em 1926: “Hurra!” Um autor brasileiro, oitenta anos atrás, previu o que está acontecendo hoje! Como se diz em 2008: “Menos, menos”. Guardemos a comemoração para depois de saber do que trata, exatamente, o livro.
     Monteiro Lobato era, em 1926, aos 44 anos, o mais famoso e mais lido autor brasileiro, não só por causa do Sítio do Picapau Amarelo mas também pelo tipo do Jeca Tatu, pelos contos de Urupês e de Cidades Mortas, pelos artigos nos jornais. Era também um raro modelo de escritor que se desdobrava em empresário; entre outros empreendimentos, foi fundador, sócio majoritário ou sócio importante de sucessivas editoras (Monteiro Lobato e Cia, Companhia Editora Nacional, Brasiliense). Lobato pensava grande. Em 1926 teve um estalo: ia entrar no mercado dos EUA. Sonhou, em carta ao amigo Godofredo Rangel, vender 1 milhão de exemplares. Foi com esse propósito que escreveu O Presidente Negro.
     Os EUA imaginados por ele para o ainda hoje distante 2228 tinham uma população de 314 milhões de habitantes – 206 milhões de brancos, 108 milhões de negros. Lobato tinha admiração pela grande república da América do Norte; Henry Ford, a quem dedica parágrafos entusiasmados no livro, era o seu ídolo. Os EUA de 2228, tal qual os concebeu, estavam melhor ainda por causa do aprimoramento da raça. Para começar, haviam trazido de volta as “sábias leis espartanas” de eliminação, no nascedouro, dos portadores de defeito físico. Para completar o serviço, decidira-se esterilizar “os tarados, os malformados mentais” e outros capazes de “prejudicar com má progênie o futuro das espécies”.
     A utopia de Lobato é o triunfo da eugenia, conceito então em voga e cujos desdobramentos práticos o mundo logo conheceria – o nazismo já dobrava a esquina. Não se procriava às tontas, em 2228, como em 1926 ou em 2008. Só podiam fazê-lo os casais portadores do “brevê de pais autorizados”, emitido pelo Ministério da Seleção Artificial depois de rigorosos testes de sanidade. Esse admirável mundo novo era perturbado no entanto por um entrave incontornável – a divisão da sociedade entre brancos e negros. A questão tornou-se aguda, às vésperas da eleição presidencial de 2228, em virtude de uma cisão nas hostes brancas; embaladas pelas ilusões do feminismo, as mulheres lançaram candidatura própria. Resultado: venceu Jim Roy, o candidato dos negros.
     Que fazer? Os brancos, tanto homens como mulheres, ficaram em estado de choque. As mulheres, arrependidas, correram de volta aos maridinhos. Melhor assim, mas restava o problema do inaceitável resultado eleitoral. Golpe de estado nem pensar. A Constituição dos pais fundadores continuava sagrada. Foi aí que luziu o gênio do inventor John Dudley. Ele lançou no mercado, com vistas aos consumidores negros, uma milagrosa loção de alisar o cabelo. O sucesso foi absoluto. Até Jim Roy aderiu à loção “desencarapinhante”, sem suspeitar do efeito secundário que o esperto Dudley introduzira no produto: ela esterilizava o usuário. Os EUA, com isso, não só se livraram do presidente negro, morto na véspera de tomar posse em circunstâncias não muito bem esclarecidas pelo livro, mas de toda a população negra. Antecipando um famoso adepto do esporte, Lobato inventou a solução final – ele que, anos mais tarde, seria um adversário tenaz dos fascismos, tanto os europeus como o brasileiro do Estado Novo.
     O sonho de arrebatar o mercado americano deu em nada. Um dos poucos editores dos EUA que se dignaram dar-lhe uma resposta explicou que o negro é “um cidadão americano, parte integrante da vida nacional, e sugerir seu extermínio por meio da sabedoria e da capacidade superior da raça branca levaria a uma dissensão tão violenta no espírito dos leitores quanto faria um conflito entre dois partidos políticos, ou duas religiões, em que um extirparia o outro”. No Brasil, onde as teorias racistas foram moeda comum entre os intelectuais da segunda metade do século XIX até a primeira do XX, a história chocava menos do que naqueles EUA em que a segregação era consagrada em lei.
     A moda no Brasil era acreditar na maldição da mestiçagem. Ela teria criado uma raça fraca de corpo e mentalmente inepta. Nos EUA, ao contrário, a segregação, conforme diz Lobato no livro, gerou “a glória do eugenismo humano”. Lido hoje, O Presidente Negro deixa uma dúvida: o autor falava sério ou estaria usando da ironia para denunciar o despropósito da eugenia e do racismo? O tom não engana: é a sério. Miss Jane, a personagem do livro que narra a história, tal qual a viu no “porviroscópio”, um aparelho de enxergar o futuro, fala por Lobato, em O Presidente Negro, tanto quanto, nos livros para crianças, fala por ele a boneca Emília.

Roberto Pompeu de Toledo           Veja,     26/03/2008
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A menina dos fósforos

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre menina seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua correndo para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.
Menina dos fósforosPor isso, a menina seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a todos que passavam, dizendo: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha ido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre criança! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.
Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de uma lareira cheia de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e a lareira desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.
Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a menina viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de louças delicadas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da menina. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.
E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as vitrines das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direção à terra, deixando atrás de si um comprido rastro de luz.
«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe à vezes: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»
Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!
— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como a lareira, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.
Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.
Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma menina, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.

Hans Christian Andersen
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Basta um momento de suprema felicidade

Terminei de ver o filme do Jabor pensando: pois é, este é um dos filmes que eu queria ter feito. Sempre tive um mundo de filmes na cabeça, nenhum deles realizado. Ficaram guardados enquanto eu esperava a chance de ser diretor. O diretor que nunca fui e, talvez, nunca serei. Tem jeito de Oito e Meio esta afirmação? Onde me desviei do sonho de fazer cinema?
Nos últimos tempos vi dois filmes que eu deveria/poderia ter feito. Sobre um deles, já falei, é o de Woody Allen, Meia-Noite em Paris. O outro é este Suprema Felicidade, do Jabor. Dia desses, depois do almoço anual dos cronistas do Estado, saí num táxi com o Jabor, já que somos vizinhos. No caminho, a conversa deslizou para o filme dele, que eu não tinha visto. Quando foi lançado, eu não estava em São Paulo. Depois, bem depois os exibidores tiraram de cartaz e ficou por isso. Claro, essa indiferença dos exibidores provocou uma (justa) mágoa no diretor.
Quando indaguei: "Saiu em DVD?", ele respondeu: "Não apenas saiu, como vou te dar um". Passei pela casa dele, apanhei o DVD e corri para meu apartamento. Meio da tarde, eu não queria sentar-me ao computador, estava ansioso, fiz o filme rodar.
Desgraçado, esse Jabor! A palavra não tem o tom da maldade, de rogar praga, é minha expressão de afeto. Pois ele fez o filme que está (estava) na minha cabeça. Recuperou por meio de um personagem, que vai dos 4 aos 20 anos, toda uma época, que foi dele e também minha. Sei, passa-se no Rio de Janeiro, mas também aconteceu em Araraquara, Bauru ou Marília. O Brasil era igual, lento. Uma coisa menos complicada, mais ingênua, com pouca informação, com pureza e sacanagem, com ideais, sonhos e muitos desejos.
Não invejei o avô do menino (vivido magistralmente por Marco Nanini), porque tive um avô, que, se não era "zoneiro", ou seja, de farrear na zona, ou bordel, tocando trombone de vara, era um avô que me encantava ao produzir em sua marcenaria móveis, brinquedos, caixas de relógio de parede; esculpia cavalos, me levava ao campo para caçar içás.
Quem não teve um pipoqueiro safado a nos gozar, perguntando se tínhamos pegado nos peitinhos das meninas? Quem não teve uma proibidíssima revista de mulheres peladas? A nossa se chamava Paris Hollywood, impressa em sépia e com os pelos das mulheres escamoteados, de modo que pareciam manequins de vitrine. Mesmo assim, excitavam! Nos meus 18 anos, sensacional era o cabaré que ficava em São Carlos, exatamente onde é a UFSCAR hoje.
Ah, caro Jabor, você foi buscar no fundo de você, mas mexeu comigo, com todos nós, sem fazer um filme nostálgico, sem dizer que naquele tempo é que era bom. Disse apenas: naquele tempo era assim, tinha lágrimas e risos. Você teve sua Marilyn, eu também. Nós, de Araraquara, tínhamos a Rosicler, loira, provocante, sedutora. Ou a Cotuba tão livre, independente, na dela, indiferente aos diz-que-diz-ques. E olhe o acaso. Falo de Rosicler e Marilyn em meu livro Acordei em Woodstock, o mais recente, saiu há três semanas.
E o teatro-revista, e a escola? Naquele tempo já existia o bullying, só que não precisavam convocar o diretor, o orientador pedagógico, os pais, as testemunhas, o psicólogo, essa doideira toda. Tinha sujeito que apanhava, apanhava, até que um dia, ele batia, batia. Tudo era resolvido entre nós, tínhamos de saber conversar, negociar, ganhar e perder, levar e dar de volta, enfim, aprender a viver e se virar.
Jabor, nunca fiz esse filme que ia falar de carnaval, de lança-perfume, de marchinhas carnavalescas, de festas nas casas, de boleros, de risos e choros, de mães sofredoras, de homens desatinados. O meu ia (digo, vai) ter o que não tem no seu: igreja, procissões de Semana Santa com Verônica cantando, malhar o judas, olhar as coxas das professoras com espelhinho, ver vizinhos reunidos nas cadeiras na calçada ou ouvindo radionovela ou programas de auditório da Nacional, frequentando quermesses, comprando rifas de frango assado e mandando Correio Elegante, jogando tombola, assistindo a chanchadas.
Você ficou 17 anos longe do cinema, mas voltou e realizou Suprema Felicidade, um filme tocante. Felliniano. Musical, nossa vida foi cheia de músicas que marcaram: Besame Mucho, Quiçás, Quiçás, Love Is a Many Splendored Thing, Mona Lisa, Ninguém me Ama, As Águas Vão Rolar, Sassaricando, Touradas de Madri, Granada, A Noite do Meu Bem, Love me Tender, Carol, Diana, Datemi um Martelo, Dio Como Ti Amo, Mulher de Trinta, Você menina moça/ mais menina que mulher...
Vendo o making of, Jabor, percebi uma coisa. Você feliz, solto, amando cada cena, cada ator, cada personagem e tudo isso a gente sente no filme. Teve quem não gostou? Sempre tem. Mas vai ver que a vida deles não foi tão legal quanto a nossa! Precisamos descobrir se tiveram um momento de suprema felicidade. Porque basta um momento para justificar tudo, a vida inteira. Um dia, suprema felicidade, farei um filme. Enquanto isso, caminho atrás desse sonho, não fico paralisado.
Ignácio de Loyola Brandão 
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