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Dilemas Indecifráveis!!!


Hoje, deparei-me perdido, qual desatino que vem,
Em inútil forma de aspiração, moldurar o sentimento,
E lançar-me sem aviso o coração aos pés de alguém...
É tão frágil o amor, como doce aroma nas asas do vento!

Entorpecem os sentidos, não por pretensão ou desdém,
Mas quiçá por falha nos motivos que coloquem em movimento
O carrossel das utopias... Acato apenas desenganos, ninguém;
Me vê como me vejo, alado a mim e debruçado no desalento...

Incoerências... Se tua imagem bela me espevita o pensar!
Reveste-me em sonhos com asas de anjo impenetráveis,
Não me deixando padecer, é tão bom assim sonhar...

Mas quando acordo todas as minhas leis são violáveis,
Entraves exercidos ao anseio, não me consentem ao certo enxergar,
E quanto mais te vejo, mais os teus dilemas jazem indecifráveis.

Paulo Alves
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Máquina do Tempo

Queria construir, uma máquina do tempo,
Imendar os erros inocentemente ou não cometidos,
Criar em mim, um novo esperançoso alento...

Viajar assim, até onde não cheguei a ser eu
Nas escolhas mal delineadas, nas oportunidades perdidas,
Fazer voltar os sonhos, que hoje até a alma esqueceu...

Voltar por fim, ao dia de hoje,e ver por definido momento,
Quais as mudanças, ou se a tristeza seria já alegria,
Oh!!! Se pudesse, sim construíria, uma máquina do tempo...

Paulo Alves
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Concurso da Caixa Econômica Federal - De Olho no Horário


Há muito tempo ele estudava para ser bancário.

Com vontade, muito estudo e dedicação, ele tentava passar nos concursos da Caixa Econômica Federal ou do Banco do Brasil.
Mesmo sem ter sido noticiado a abertura do edital do concurso, ele, antecipadamente, já estava estudando baseando-se nas matérias que foram exigidas nos últimos concursos. Com ansiedade e muita esperança ele aguardava a abertura de qualquer um dos dois concursos.

Onde ele morava, domingo, a empresa de ônibus deixava poucos veículos na linha, ele, como estava com a prova do concurso da Caixa Econômica Federal marcada para as oito horas da manhã, resolveu que era melhor chegar cedo ao local da prova, do que vacilar e correr o risco de perder aquele concurso.

Por isso ele chegou à conclusão de que teria que ir para o ponto de ônibus bem mais cedo do que de costume. O ideal é que ele fosse para lá, mais ou menos, umas cinco e meia da manhã.

 
Ele foi dormir e, assim que ele despertou, rapidamente, esquentou um pouco de café, tomou um banho super rápido, se trocou e foi para o ponto de ônibus. Chegando ao ponto ele ficou ali esperando o coletivo passar. Enquanto ele estava esperando o ônibus, lá no barzinho ao lado, o tiozinho já tinha colocado a música: Garçom, do Reginaldo Rossi, umas quatro vezes. Ele já tinha observado passar um monte de coisa: coruja, táxi, cachorros, gatos e nada do ônibus aparecer.

 
Foi aí que ele começou a desconfiar do horário. Dito e feito. Ele perguntou para um homem que estava no bar e não deu outra. Não é que o ansioso rapaz, com medo de perder a prova do concurso tinha saído de casa às quatro horas da manhã.

Edilson Rodrigues Silva

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A mulher não existe

Depois de amanhã é o Dia Internacional da Mulher. E várias amigas já me pedem: "Escreve, escreve sobre nós!..." E muitas me dão pistas, dicas do que dizer. Uma delas, se disse "perua inteligente" e me escreveu: "Antes, as mulheres eram escravas passivas, hoje somos ativas, mas continuamos escravas. Mesmo sendo frígidas, temos de insinuar grandes desempenhos sexuais. Temos de prometer 'funcionamento'. Não é por acaso que eles nos chamam de 'aviões'. É só olhar as revistas masculinas. O que está acontecendo no Brasil é a libertação da 'mulher-objeto'. A publicidade é toda em cima de sexo."
É verdade, penso eu: a bunda é a esperança de milhões de Cinderelas. O corpo tem de dar lucro.
As mulheres querem ser disputadas, consumidas, como um bom eletrodoméstico. Ficam em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pelos pubianos nos salões de beleza e, depois, saem felizes com apenas um canteirinho de cabelos, uns bigodinhos verticais que lembram o Hitler ou bigodinhos nordestinos. A liberdade de mercado produziu o mercado da "liberdade".
Sempre me espanto com o Dia da Mulher. O psicanalista Lacan disse que "A Mulher" não existe, pois não há nenhuma coisa que as unifique. Eu nunca conheci a Mulher. Eu já amei e odiei "mulheres". Então, por que esse título genérico? Existe a mulher de burca, a stripteaser, existe a freira, a bondosa, a malvada, existe Eva e Virgem Maria, existe a histérica, a obsessiva. A "Mulher" é invenção dos machos.
Sempre que chega esse Dia Internacional, nós machistas elogiamos o lado "abstrato" das fêmeas, sua delicadeza, sua capacidade de perdão (sic), sua coragem, em textos de hipocrisia paternalista, como se falássemos de pobres, de crianças ou de vítimas. Claro que na História, as mulheres foram e são oprimidas, estupradas na alma e corpo.
Mas não é como vítimas que devemos lamentá-las ou louvá-las . Sua importância é afirmativa, pois elas estão muito mais próximas que nós da realidade deste mundo aberto, sem futuro ou significado. Elas não caminham em busca de um "sentido" único, de um poder brutal. Não é que sejam "incompreensíveis"; elas são mais complexas, imprevisíveis como a natureza. O homem se crê acima do mistério, mas as mulheres estão dentro. São impalpáveis como a realidade que o homem "pensa" que controla. A mulher pensa por metáforas. O homem por metonímias. Entenderam? Claro que não. Digo melhor, a mulher compõe quadros mentais que se montam em um conjunto simbólico, como a arte. O homem quer princípio, meio e fim.
A mulher não é um enigma. Nós é que somos, disfarçados de sólidos. Os homens são óbvios, fálicos. A mulher não acredita em nosso amor. Quando tem certeza dele, para de nos amar. O homem só vira homem quando é corneado. A mulher não vira nada nunca... Nem nunca é corneada, pois está sempre se sentindo assim... Como no homossexualismo: a lésbica não é veado.
A mulher precisa do homem impalpável. As mulheres têm uma queda pelo canalha (cartas indignadas para a redação). O canalha é mais amado que o bonzinho. Ela sofre com o canalha, mas isso a legitima, pois ela quer que o homem a entenda e o canalha lhe dá um sentido claro com sua viril antipatia. As mulheres não sabem o que querem; o homem acha que sabe. O masculino é certo; o feminino é insolúvel. A mulher é metafísica; homem é engenharia. A mulher deseja o impossível; desejar o impossível é sua grande beleza.
Elas ventam, chovem, sangram, elas têm inverno, verão, TPMs, raiam com a luz da manhã ou brilham à noite, elas derrubam homens com terremotos, elas nos fazem apaixonados porque nelas também buscamos um sentido que não chega jamais. Elas querem ser decifradas por nós, mas nunca acertamos no alvo, pois não há alvo, nem mosca.
Daí o pânico que sentimos diante dessas forças da natureza, com nossas gravatas da cultura, daí o ódio que os primitivos cultivam contra elas, daí os boçais assassinos do Islã apedrejando-as até a morte. As mulheres são sempre várias. Isso não as faz traidoras; nós é que nos achamos "unos". Só os autoconfiantes são traídos. Esta é uma das razões do sucesso das putas. O que buscamos nelas? Os homens pagam para que elas não existam, para que sejam úteis, sem vida interior. Pagamos a prostituta para que nos dê uma trégua, para que não nos confunda, não nos traia. Nós nos deixamos enganar e ela finge que não nos engana. Ela nos despreza, claro, mas muitos preferem essa humilhação consentida, em vez de um amor puro e perigoso. A prostituta só ama o cafetão porque ele a esbofeteia e lhe dá o alívio de se sentir injustiçada.
O único grande mistério talvez seja a divisão entre os sexos. Por mais que queiramos, nunca chegaremos lá. Lá, aonde? Lá na diferença radical onde mora o "outro". Há alguns exploradores: os veados, sapatões, travestis, que mergulham nesse mar e voltam de mãos vazias, pois nunca saberemos quem é aquele ser com útero, seios, vagina, aquele ser maternal, bom, terrível quando contrariado no "ponto G" da alma. Por outro lado, elas nunca saberão o que é um pênis pendurado, um bigodão, a porrada num jogo do Flamengo, um puteiro visitado de porre, nunca saberão do desamparo do macho em sua frágil grossura. Elas jamais saberão como somos. O amor é a tentativa de pular esse abismo. Eu sou hoje o que as mulheres fizeram comigo ou o que eu aprendi com elas, no amor ou no sofrimento. Eu descobri defeitos e qualidades que me formaram, como acidentes que me foram desfigurando. O que aprendi com elas? Não tenho ideia, mas sei que me mudaram. Eram como quebra-cabeças: ao tentar armá-los, eu achava que sabia tudo, mas entrava em novos labirintos. Com elas, loucas, sóbrias, boas e más, descobri que não tenho forma nem lógica e que sempre me faltará uma peça na charada.
Arnaldo Jabor

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Manual de sobrevivência na CPI


Há oito anos, escrevi um artigo sobre o "Se..." de políticos sob suspeita, em vaga homenagem ao poema celebre de Rudyard Kipling de 1910. Estávamos às vésperas de uma CPI. Agora estamos diante de outra CPI, inédita, autofágica, uma espécie de banho de descarrego de todos contra todos. Creio que tem sido tanta a vergonha dos escândalos, tão forte a repulsa da opinião pública que, estranhamente, os congressistas resolveram se purgar em público, em um ritual coletivo de "purificação". Estão arrependidos, porque cederam a um impulso inconsciente e vão deparar com mil crimes insuspeitados sobre a voraz corrupção que atinge todos os empreendimentos privados com grana pública. Todos. Por isso, repito e atualizo esse texto para hoje, pois mudaram as circunstâncias, mas os delitos e as negações continuam iguais. Veremos um replay, mas creio que essa CPI é bem "contemporânea" e atende a uma demanda da vida atual: a democracia, a imprensa livre, o crescimento econômico e cultural criaram uma nova "ética de mercado", rejeitando a mixaria de antigas ladroagens feudais.
O que devem fazer os acusados para escapar? Sigam o manual de instruções do bom corrupto: "Se puderes manter a cabeça erguida, quando todos te acusarem, chamando-te de 'corrupto', por te terem pegado com a mão na cumbuca, se mantiveres a aparente dignidade, com sorrisos de mofa diante de provas inabaláveis do teu crime e disseres com voz serena: 'Tudo é uma infâmia de meus inimigos políticos' ou 'Não me lembro se esta loura de coxas douradas foi minha secretária ou não...', se disseres isso sem suar, sem desmanchar a gravata, com roupas impecáveis que não revelem o esterco que te vai na alma, se fores capaz de chorar diante da CPI, ostentando arrependimento profundo, usando filhos, pais, pátria, tudo para se livrar... e, sobretudo, se puderes construir uma ideologia que te justifique e absolva, de modo que os atos mais sujos ganhem uma luz de beleza política, se puderes dourar tua pílula, colorir teus crimes, musicar teus grunhidos, de modo que possas mentir com fé, trair sem remorsos e roubar com júbilo, se puderes convencer a ti mesmo de que Cristo (também injustiçado) compreende teus pecados e te perdoa, se puderes crer que tens direito de roubar o povo para vingar uma infância pobre, ou porque tua mãe foi lavadeira e prostituta para pagar teu diploma fajuto de business administration, se acreditares mesmo que tens direito de trair ou tascar granas ou inventar precatórios ou superfaturar remédios de criancinhas com câncer porque também sofreste como menino comido por garotão mais forte no porão da tua infância, dor e delícia sempre negadas por teu machismo compensatório, se acreditares que a mutreta, a maracutaia, a 'mão grande', o 'me dá o meu aí' tem algo de transgressão pós-moderna, algo de Robin Hood para si mesmo, como dizes, na piada 'há há... eu roubo dos ricos para o pobre aqui...', ou se, convocando uma ideologia conservadora, pensas que a roubalheira sempre houve na humanidade, ou seja, que metes a mão por uma poética saudade do passado, como se ama uma antiguidade, um vaso Ming ou um abajur art decô ou se, em homenagem ao populismo tradicional, plagiares antigos slogans 'ademaristas' e, pensando em teus viadutos superorçados, disseres baixo a ti mesmo: 'Roubo, mas faço...' enquanto enfias a língua na orelha da lobista gostosa ao teu lado no 'Piantella' de porre e feliz ou se justificares tua fortuna escrota por motivos mais científicos, invocando Darwin ou Spencer, declarando que o animal humano sobrevive pela agressão e competição ('survival for the fittest') e que, portanto, assim como o chimpanzé ataca o mico-leão e o jacaré come o veado, também cumpres a ordem natural das coisas: 'Roubo, sim, pois isso está inscrito no genoma dos hominídeos...' ou mesmo, se mais filosófico, lamentares melancolicamente que 'acabou o tempo das utopias...' ou 'a vida é a ilusão dos sentidos' e, portanto, 'roubo, sim, e caguei...' ou ainda, se num gesto de superioridade literária, invocando ladrões poéticos como Villon ou Jean Genet, assumires tua fisionomia de rato ou de preá, tua carinha embochechada por anos de uisquinhos, licores, pudins, babas de moça, se puderes erguer o queixo diante do espelho ou diante de amigos como fez o grande (raro gesto) Arruda e o inesquecível PC que cunhou a frase eterna '10% é pra garçom...', se te orgulhares de tua esperteza e, de cuecas diante do espelho, enquanto a amante se lava no banheiro, berrares em júbilo: 'Eta garoto bão, espertalhaço!', ou seja, se diante de si e do mundo, puderes enfunar a barrigona cheia de merda e dizer: 'Sou ladrão, sim, mas quem não é?' ou 'podem me acusar, mas quem tem este Renoir?', se puderes cultivar todos esses méritos, se puderes justificar com serenidade tua vida de estelionatos, pequenos furtos, orelhas de traficantes ou até mesmo de esquartejamentos com motosserras ('Esquartejo, sim, mas por bons motivos...'), se puderes fazer tudo isso, confiante nos teus advogados sempre alertas como escoteiros na pilhagem nacional, confiante na absoluta conivência de rituais jurídicos que sempre te livrarão da cadeia enquanto os pardos pobres apodrecem nas celas com aids e 'quentinhas' superfaturadas pelo marido da perua louca, e se, além da confiança na cega Justiça, no manto negro dos desembargadores que sempre te acolherão, se, além deste remanso, deste consolo que te encoraja, roubares mesmo, no duro, por amor, por paixão, por desejo sexual, pela bruta tesão de acumular o máximo de dólares para nada, pela fome de lanchas, jatos, putas, coberturas, Miami, Paris e se, com fé e coragem, reconheceres esse prazer com orgulho e sem remorsos, então, eu te direi, com certeza, que vais herdar a Terra toda com todos os dinheiros públicos dentro e, mais que isso, eu te direi que serás, sim, impune para sempre, um extraordinário exemplo do canalha brasileiro, meu filho!!..."
Arnaldo Jabor
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O pastel para a criança que não nasceu


Dirce acariciava a barriga e sorria. Morena, quase mulata, de dentes brancos, todo seu rosto brilhava. Sábado de sol, a feira da rua fervia. Ou, como dizem no interior, era um fervo só. Dirce e sua amiga Juliana estavam indecisas diante da barraca de pastel. Carne, queijo, frango com catupiri, pizza, palmito ou o especial, um pastel imenso que vale por um almoço e leva tudo dentro, carne, azeitonas, ovo. Dirce comentou: "Se pudesse, comia todos. Quando passo pela barraca, minha filhinha chuta a barriga, deve sentir o cheiro". Transferia para a filha os desejos dela, grávida.
- É para quando? - perguntou o senhor que tomava caldo de cana, apoiado numa bengala envernizada, antiga.
Nas feiras, os caldos são gelados, muito doces, devem elevar as taxas de glicemia aos céus. Como resistir a um pastel de feira e um copo de garapa, como dizem os caipiras? Garapa com limão ou abacaxi. Irresistível.
- Para daqui a dois meses, respondeu Dirce com um sorriso maior ainda. Estava curtindo, não parava de acariciar a barriga.
Dirce era conhecida minha, tinha estudado na Unesp em Araraquara, aluna de Eleieth Saffioti, socióloga e feminista ferrenha, boa gente. O marido de Dirce era bibliotecário e conhecido por emprestar livros a todo mundo. "Devolvem, Pancho?", indagavam aqueles preocupados com a "posse" de livros que acabam ficando parados nas estantes. "Devolvem, para poder levar outros", explicava Pancho, sem preocupação.
Dirce comeu seu pastel de palmito e olhava ainda com gula para um de carne. Carne com pimenta, delícia. Ah, se te pego, pensava. O senhor da bengala percebeu a intenção.
- Posso te oferecer um pastel?
- Me oferecer?
- Vi que está com vontade. Deve comer. Se não, pense só com que cara a criança vai nascer.
- Não acredito nessas coisas! Acho que não devo comer outro, estou fora do peso.
- Então, leve um para a criança. Ela já ganhou muito presente?
- Bastante.
- Mas ninguém ainda deu um pastel para ela. Deu?
- Não, claro que não.
- Quero ser o primeiro a dar um pastel. Para que ela saiba como é bom.
Dirce riu muito, achou a ideia original. Só que a criança nasceria em dois meses. Como guardar o pastel? No freezer? Não importa, o velho já estava pedindo ao barraqueiro que suava em bicas diante da imensa frigideira de óleo fervente:
- Me dê um de queijo.
- Tudo bem, vou levar para Maristela.
- Vai se chamar Maristela? Pois leve o pastelzinho e diga que foi presente do Floriano, o amolador de facas e tesouras, aposentado.
Mal entregou o pastel a Dirce, seu Floriano caiu. O coração parou de repente, infarto fulminante. "Tinha 97 anos", disse o barraqueiro, "e nunca deixou de vir comer meu pastel. Sempre presenteava uma criança com um, fazia bem a ele. Deve ter morrido feliz, imagine, dar um pastel a uma criança que ainda não nasceu!" Depois que o resgate levou seu Floriano, Dirce e Juliana passaram no vidraceiro, explicaram a situação e pediram:
- Encontre um modo de emoldurar este pastel.
Maristela tem hoje 8 anos e no seu quarto, numa estante, há uma caixinha vedada por um processo a vácuo, de maneira que o pastel parece fresco como naquela manhã de sábado. Dirce redigiu um letreirinho contando a história. É uma sensação. Único detalhe: Maristela detesta pastel. Comeu um, uma vez, e nunca mais.
Ignácio de Loyola Brandão

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