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Com os olhos da alma


O escritor argentino Jorge Luis Borges, já com 80 anos, foi visitar o México. Seu editor me conta que, depois de vários dias de palestras, conferências, e homenagens, Borges pediu uma tarde livre para visitar as pirâmides astecas no Yucatán.
O editor explicou que se tratava de uma viagem muito cansativa, onde era preciso andar de táxi, avião, jipe. Borges não se deixou convencer, e terminaram arranjando tudo para que fosse até Uxmal.
Chegou quase ao entardecer, depois de um dia exaustivo. Sentou-se diante de uma pirâmide do século X, e ficou uma hora sem dizer nada. No final, levantou-se e agradeceu aos seus acompanhantes: “obrigado por esta tarde e esta paisagem inesquecível”.
Como sabemos, Borges era cego. Mas isto não impediu que sua alma compreendesse o que estava ao seu redor.

Paulo Coelho
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Vou para a Paraíba


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Poeminha Compensatório



Amigas, venham todas
Tragam o sal, o sol, o som, a vida,
Eu sou o Cavalheiro da Triste Figura
Mas tenho uma bela Távola Redonda

Saio sempre do cinema
Com o sentimento desagradável
De que, se não houvesse  lido a
Crítica, teria sido formidável!

Millôr Fernandes
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E a morte perderá o seu domínio

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.


E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corda em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio. 


Dylan Marlais Thomas 
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Canção Outonal

Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma da névoa.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.

Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rosas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?

E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?

Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos na Terra?

Se o azul é um sonho,
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?
Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Corações dos meninos!
Almas rudes das pedras!
Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como minha pena.


Frederico García Lorca
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Perguntaram a Buda


Perguntaram a Buda: "O que mais te surpreende na humanidade?"
E ele respondeu: "A cabeça dos homens, porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde, e por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente e nem o futuro, e vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido..."
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Epitáfio: o dia para o qual nunca nos preparamos

Triste e doce cena
De um lado, a família, no drama
Da perda anunciada
De outro lado, a pessoa, respira
Seu tênue sopro de vida

Mistérios da vida e da morte
Nos torna ainda tão iguais,
Tão humanos nesses tempos desiguais
Onde o destino é inexorável, vento sul ou vento norte

A quem se apega a chama
Apesar da dor que clama
Para a travessia, ruma
Missão de vida cumprida

A quem renega o ciclo vital
Que vê na morte o elo final
Sofre primeiro pela perda material
E depois não tem força espiritual

Muito já se discutiu sobre a eutanásia
Ou vem agora à tona, a ortonásia
Mas se das dores do parto, floresce a vida
Das dores da morte, não renascerá a vida?

Tendo já assistido muitas passagens
De crianças, as mais comoventes
De adultos, as mais trágicas e outras tão belas
Indago sempre o que sentem nas passarelas?

Há no livro da existência sempre um prefácio
Porém os capítulos são misteriosos
Quiçá diria bastante caprichosos
Até que chega o dia para o qual nunca nos preparamos, o epitáfio ...



AjAraújo
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