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O poeta pede a seu amor que lhe escreva


Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te. 

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte. 

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas. 

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura. 

Federico Garcia Lorca

Tradução:  William Agel de Melo

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A morte não terá domínio


Li que Samuel Beckett dizia que quem morria passava para outro tempo. Não queria dizer outro mundo, com um presumível outro clima. Referia-se ao tempo do verbo. Entre todas as mudanças provocadas pela morte havia essa: o morto passava irremediavelmente ao pretérito. Era bom pensar assim. A morte acontecia no mundo antisséptico das palavras e das regras gramaticais, nada a ver com a decomposição da carne. O “é” transformava-se em “era” e “foi”, e pronto. A migração do morto, em vez de ser da vida para o nada, era só entre categorias verbais.
A vida vista como uma narrativa literária nos protege do horror incompreensível da morte. Podemos nos imaginar como protagonistas de uma trama, que mesmo quando não é clara indica alguma coerência, em algum lugar. O próprio Beckett só escreveu sobre isso: a busca de uma trama, qualquer trama, por trás do aparente absurdo da experiência humana. E um enredo, ou um sentido que faça sentido, só pode ser buscado na narrativa literária, no encadear de palavras que leva a uma revelação, mesmo que esta não explique nada, muito menos a morte. E se falar, falar, falar sem cessar, como fazem os personagens do Beckett na esperança de que aflore algum sentido não der resultado, pelo menos está-se fazendo barulho e mantendo a morte afastada. A literatura tem essa função, a de uma fogueira no meio da escuridão da qual a morte nos espreita. Ou de uma matraca contra o silêncio final. Vale tudo, mesmo a garrulice incoerente de um personagem do Becket, contra a escuridão e o silêncio.
Num poema que fez sobre seu pai moribundo Dylan Thomas o insta a reagir ferozmente contra o esvaecer da luz – “Rage, rage against the dying of the light” - e a não se entregar à morte sem uma briga. Não sei se o Beckett encontrou o consolo que procurava pelos seus mortos na ideia de que tinham apenas mudado de tempo de verbo mas imagino que, como Dylan Thomas na sua poesia inconformada, tenha recorrido à literatura como um meio de negar à morte o seu triunfo. Ninguém morre. Há apenas uma revisão na narrativa da sua vida para atualizar o tempo dos verbos. Outra vez Dylan Thomas: “And death shall have no dominion”, e a morte não terá domínio.
Diz-se que quem morreu “já era”, o que é o mesmo que dizia o Beckett com mais sensibilidade. Mas Beckett queria dizer mais. Os personagens de narrativas literárias mudam do tempo presente para o tempo passado mas continuam no mundo, mesmo que no mundo restrito dos livros e das estantes. Salvo, talvez, os cupins e as traças, nada ameaça a sua perenidade. “São” eternamente.

Luis Fernando Verissimo 
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Quando a blitz é assassina


Não havia nada ameaçador dentro do carro. Um violão, utensílios de cozinha, papéis e uma pequena quantidade de maconha, 50 gramas. Quem dirigia o Ford Fiesta preto era o empresário Ricardo Prudente de Aquino, de 39 anos. Eram 22h30.
Ricardo topou com uma blitz num bairro nobre de São Paulo, Alto de Pinheiros, voltando da casa de um amigo. Não parou e nunca saberemos por quê. Foi perseguido pelos PMs por 800 metros. Cercado numa rua escura, parado, sacou o celular. Talvez para avisar a mulher ou pedir ajuda a alguém.
Não teve tempo de completar a ligação. Foi morto com dois tiros na cabeça – dos sete disparos à queima-roupa feitos por três PMs. Eles são da Força Tática, grupo especial da PM, e jovens, de 26, 28 e 30 anos. Dizem ter confundido o celular com uma arma.

A imagem do vidro estilhaçado do carro é violenta. Desproporcional, como se retratasse a execução de um bandido perigoso ou um fuzilamento com marcas de máfia ou vingança. Ninguém testemunhou o crime, e as imagens das câmeras não são nítidas porque a luz dos faróis é forte demais. A versão oficial é a única sobrevivente.
Ali morreu, em segundos, o sonho mais recente de Ricardo. Ser pai com a mulher, a publicitária Lelia Pace de Aquino. Acabaram os encontros entre amigos onde exercia seus dotes culinários. Ele chegou a trabalhar como um dos chefs do D.O.M., restaurante de Alex Atala na capital paulista. Mergulhava nos momentos de lazer.

Um oficial da PM foi à casa de Ricardo, na Vila Madalena, pediu “perdão” aos parentes e disse estar “envergonhado”. Os PMs envolvidos – dois soldados e um cabo – foram presos em flagrante por homicídio doloso. Isso quer dizer homicídio com intenção de matar.
O governador Geraldo Alckmin, em ano eleitoral, apressou-se a se desculpar publicamente “pela morte trágica e injustificada”. A repercussão foi maior porque a vítima é de classe média alta e tem amigos influentes na sociedade.

O comandante interino da PM paulista, coronel Hudson Camilli, deu um nó na língua: “Tecnicamente o cerco foi feito de maneira adequada. A decisão de atirar foi em razão da percepção de uma injusta agressão, que de fato não aconteceu”. Um raciocínio tortuoso que poderia ter sido bastante simplificado pelo comandante.
Ricardo era suspeito? Sim, por não ter parado. A perseguição foi correta? Sim, porque o motorista fugia. O pedido de reforço foi apropriado? Sim, porque a Força Tática é um grupo especial e era necessário um cerco.

A partir daí, começou a lambança. Para forçar o suspeito a se render, a polícia deve primeiro disparar nos pneus como advertência e sem intenção de atingir a pessoa. Quando há ameaça clara aos policiais, a orientação é disparar apenas dois tiros. E para ferir, não para matar.

A viúva do empresário Ricardo, Lelia, de 35 anos, diz que lhe resta conviver “com o vazio”. E se mostra perplexa. Como assim, tiros para matar o motorista de “um carro parado, estacionado perfeitamente na rua”?

Ricardo não foi a única vítima da histeria da PM paulista na semana passada. Em Santos, duas horas depois do assassinato dele, outra blitz terminou em tragédia pelo mesmo motivo: o carro não parou. Havia seis jovens, e o motorista não tinha habilitação.
A polícia foi atrás e deu 25 tiros, nove só no para-brisa. O estudante Bruno Vicente de Gouveia e Viana, de 19 anos, que estava no banco de trás, morreu. Uma amiga, de 15 anos, estava internada em estado grave na sexta-feira.

A versão dos PMs, nesse caso, parece montada. Os policiais dizem ter atirado porque “ouviram tiros”. E apresentaram duas armas, uma de brinquedo e uma de verdade, “encontradas” no carro. O pai do jovem Bruno não acredita em nada disso. Eu tampouco acreditaria.

“Como é que vai haver um cerco e eles (os jovens) vão dar tiros? Como apareceram dois revólveres que não se sabe de onde? Todos os tiros partiram de fora para dentro”, diz João Viana, pai de Bruno.

A violência urbana não é um privilégio do Brasil. Mas existe uma crueldade extra em nosso país. Fugir por pânico, tanto de assaltantes quanto de policiais, passou a ser sinônimo de reagir. Reagir costumava ter outros significados. Atracar-se com o assaltante. Apontar uma arma para o policial. Dar um soco, agredir. Resistir à prisão.

Hoje não. Basta fugir. O assaltante se sentirá humilhado. O policial se sentirá desafiado. E fim de papo, fim de vida. Assim, numa esquina, em frações de segundo. Não fuja de bandido ou de PM.

Ruth de Aquino
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A vaca virtual

Li nos jornais e vi na TV: impressionado pelo fato de a filha, de 14 anos, passar 13 horas diárias diante da telinha, fazendo aquilo que chamam "navegar na internet", o pai tomou uma decisão drástica: tirou o computador do quarto da menina e colocou-o na sala, junto com os sofás, as poltronas e diversos outros eletrodomésticos.

Pensou que, num ambiente maior e mais poluído pelos habitantes da casa, a filha diminuiria a carga horária diante da telinha, limitando-se ao essencial, tanto no que diz respeito às informações gerais como ao gostoso bate-papo que a internet possibilita ao aproximar e ligar pessoas no universo virtual.

Na minha infância, não havia internet. Havia a geladeira, em cuja porta eu deixava recados para minha mãe ou para meus irmãos. Muitas vezes, um simples beijo, com um coração desenhado a lápis de cor vermelha. Também recebia recados, não esqueça de fazer isso, tem pastéis de queijo no forno, te amo, etc. Já era uma forma de solidão. Mas não se gastava 13 horas com esse tipo de interação, embora o universo atingido fosse mínimo.

Levando ao limite: com o desenvolvimento da informática (que ainda está na sua pré-história), com as novas ferramentas que estão a caminho, chegaremos ao limite de os jovens futuros gastarem 20 horas na telinha, reservando apenas 4 para dormir, uma vez que o banho diário e as necessidades de higiene poderão ser feitas também de forma virtual, não sei como mas tudo é possível. Serão novos Josés Serra que só viu uma vaca de verdade, em carne e osso, quando era adulto, candidato presidencial e ministro da Saúde. Evidente que ficou maravilhado.

Carlos Heitor Cony
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Deformação cultural

O novo Secretário de Cultura do Rio de Janeiro está preocupado em valorizar as manifestações mais populares daquilo que, grosso modo, pode-se chamar de cultura. Fiel às suas origens, substituiu o maestro Edino Krieger da presidência do Museu da Imagem e do Som por uma neta de Cartola. E nomeou a bisneta de Donga para outro cargo de sua secretaria.

Sem entrar no julgamento de valor da neta e da bisneta de dois grandes compositores populares, a atitude do novo secretário tem alguma coisa de nepotismo, não de nepotismo de sangue mas um tipo de nepotismo cultural inédito até agora na administração pública. O mesmo secretário promete procurar as emissoras de rádio para darem espaço ao "som" de Monarco, Dona Ivone Lara "e tantos outros".

Novamente sem entrar no mérito dos escolhidos (pessoalmente, sou fã incondicional de Monarco), creio que a função do Estado está mais acima da concorrência comercial dos diversos gêneros da nossa música. As emissoras programam-se de acordo com o mercado. Ao Estado competiria complementar as manifestações musicais e culturais que não se enquadram na grade de uma programação destinada à onda ditada pelo momento.

As emissoras não abrem espaço para gêneros que somente o Estado poderia bancar. Não se ouvem nos rádios as canções de Carlos Gomes: uma delas, por sinal, serviu de trilha sonora para o último filme Woody Allen, "Match Point". Nunca ouvi no rádio o "Batuque", de Nepomuceno, cujo ritmo popular nada fica a dever aos melhores momentos de Ary Barroso e Tom Jobim.

Cultura é um conceito abrangente que deixa de ser cultura quando se limita a manifestações setorizadas, por melhores e mais dignas que sejam.

Carlos Heitor Cony
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Ressentimento e covardia

Tenho comentado aqui na Pensata, em diversas crônicas, os usos da internet, que se ressente ainda da falta de uma legislação específica que coíba não somente os usos mas os abusos deste importante e eficaz veículo de comunicação. A maioria dos abusos, se praticados em outros meios, seriam crimes já especificados em lei, como a da imprensa, que pune injúrias, difamações e calúnias, bem como a violação dos direitos autorais, os plágios e outros recursos de apropriação indébita.

No fundo, é um problema técnico que os avanços da informática mais cedo ou mais tarde colocarão à disposição dos usuários e das autoridades. Como digo repetidas vezes, me valendo do óbvio, a comunicação virtual está em sua pré-história.

Atualmente, apesar dos abusos e crimes cometidos na internet, no que diz respeito aos cronistas, articulistas e escritores em geral, os mais comuns são os textos atribuídos ou deformados que circulam por aí e que não podem ser desmentidos ou esclarecidos caso por caso. Um jornal ou revista é processado se publicar sem autorização do autor um texto qualquer, ainda que em citação longa e sem aspas. Em caso de injúria, calúnia ou difamação, também. E em caso de falsear a verdade propositadamente, é obrigado pela justiça a desmentir e dar espaço ao contraditório.

Nada disso, por ora, acontece na internet. Prevalece a lei do cão em nome da liberdade de expressão, que é mais expressão de ressentidos e covardes do que de liberdade, da verdadeira liberdade.

 Carlos Heitor Cony
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 Pensata: Nome de uma coluna do jornal Folha de São Paulo
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A luta e a lição


Um brasileiro de 38 anos, Vítor Negrete, morreu no Tibete após escalar pela segunda vez o ponto culminante do planeta, o monte Everest. Da primeira, usou o reforço de um cilindro de oxigênio para suportar a altura. Na segunda (e última), dispensou o cilindro, devido ao seu estado geral, que era considerado ótimo.

As façanhas dele me emocionaram, a bem sucedida e a malograda. Aqui do meu canto, temendo e tremendo toda a vez que viajo no bondinho do Pão de Açúcar, fico meditando sobre os motivos que levam alguns heróis a se superarem. Vitor já havia vencido o cume mais alto do mundo. Quis provar mais, fazendo a escalada sem a ajuda do oxigênio suplementar. O que leva um ser humano bem sucedido a vencer desafios assim?

Ora, dirão os entendidos, é assim que caminha a humanidade. Se cada um repetisse meu exemplo, ficando solidamente instalado no chão, sem tentar a aventura, ainda estaríamos nas cavernas, lascando o fogo com pedras, comendo animais crus e puxando nossas mulheres pelos cabelos, como os trogloditas --se é que os trogloditas faziam isso. Somos o que somos hoje devido a heróis que trocam a vida pelo risco. Bem verdade que escalar montanhas, em si, não traz nada de prático ao resto da humanidade que prefere ficar na cômoda planície da segurança.

Mas o que há de louvável (e lamentável) na aventura de Vítor Negrete é a aspiração de ir mais longe, de superar marcas, de ir mais alto, desafiando os riscos. Não sei até que ponto ele foi temerário ao recusar o oxigênio suplementar. Mas seu exemplo --e seu sacrifício- é uma lição de luta, mesmo sendo uma luta perdida. 

Carlos Heitor Cony
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