Já começou o circo da propaganda eleitoral, o
desfile de horrores da política brasileira. Será um trem fantasma de caras e
bocas e bochechas que traçam um quadro sinistro do Brasil, fragmentado em mil
pedaços - o despreparo, a comédia das frases, dos gestos, da juras de amor ao
povo, da ostentação de dignidades mancas.
Os candidatos equilibram bolas no nariz como
focas amestradas, dão “puns” de talco, dão cambalhotas no ar como babuínos de
bunda vermelha, voando em trapézios para a macacada se impressionar e votar
neles. Os candidatos têm de comer pastéis de vento, de carne, de palmito,
buchada de bode e dizer que gostou, têm de beber cerveja com bicheiros e
vagabundos, têm de abraçar gordos fedorentos e aguentar velhinhas sem dente,
beijar criancinhas mijadas, têm de ostentar atenção forçada aos papos com
idiotas, têm de gargalhar e dar passinhos de “rebolation” quando gostariam de
chorar no meio-fio - palhaços de um teatrinho absurdo num país virtual, num
grande pagode onde a verdade é mentira e vice versa.
Ninguém quer o candidato real; querem o que ele
não é. A política virou um parafuso espanado que não rola mais na porca da vida
social, mas todos fingem que só pensam no povo e não em futuras maracutaias.
O Brasil vive um momento de suspense, de duvidas,
do “será?”. Haverá condenados no mensalão? Dilma vai conseguir governar?
Ninguém sabe o que vai acontecer. Só nos resta o mau ou bom agouro, o palpite,
a orelha coçando, o cara ou coroa.
A política brasileira anda por sustos. Meu
primeiro susto foi em 54.
Estou do lado do rádio e ouço o Repórter Esso: “O
presidente Vargas acaba de se suicidar com um tiro no peito!”. O mundo quebrou
com o peito de Getúlio sangrando, as empregadas correndo e chorando.
Estou no estribo de um bonde, em 61. “O Jânio
Quadros renunciou!”, grita um sujeito. Gelou-me a alma. Afinal, eu votara pela
primeira vez naquele caspento louco (o avô “midiático” do Lula), mais
carismático que o careca do general Lott. Eu já sentira arrepios quando ele
proibiu biquínis nas praias. Tínhamos posto um louco no Planalto - e não seria
o único...
Em 64, dias antes do golpe militar - o comício da
Central do Brasil. Serra estava lá, falando, de presidente da UNE. Clima de
vitória do ‘socialismo’ que Jango nos daria (até para fazer ‘revolução’
precisamos do Governo...). Tochas dos bravos operários da Petrobrás, hinos,
Jango discursando, êxtase político: seríamos a pátria do socialismo
carnavalesco. Volto para casa, eufórico mas, já no ônibus passando no Flamengo,
vejo uma vela acesa em cada janela da classe media, em sinal de luto pelo
comício de ‘esquerda’. Na noite ‘socialista’, cada janela era uma estrelinha de
direita. “Não vai dar certo essa porra...” - pensei, assustado. Não deu.
Ainda em 64, festa do ‘socialismo’ no teatro da
UNE. 31 de março, onze da noite. Elza Soares, Nora Ney, Grande Otelo comemoram
o show da vitória. No dia seguinte, a UNE pegava fogo, apedrejada por meus
coleguinhas fascistas da PUC. Na capa da revista O Cruzeiro, um baixinho feio,
vestido de verde-oliva me olha. Quem é? É o novo presidente, Castelo Branco.
Corre-me o arrepio na alma: minha vida adulta foi determinada por aquele dia. O
sonho virou um pesadelo de 20 anos.
Depois, vem o Costa e Silva, sua cara de burro
triste e, pior, sua mulher perua brega no poder. Aí, começaram as passeatas,
assembleias contra a ditadura. Costa e Silva tinha alguns traços populistas e
resolveu dialogar com os líderes do movimento democrático. Uma comissão vai
conversar com o presidente. Aí, outro absurdo - os membros da comissão se
recusam a vestir paletó e gravata na entrada do palácio: “Não usamos gravatas
burguesas!” - e o encontro fracassa. Ninguém lembra disso; só eu, que sou
maluco e olho os detalhes.
Tancredo entrou no hospital e arrepiou-me o
sorriso deslumbrado dos médicos de Brasília no Fantástico, amparando o
presidente como um boneco de ventríloquo; tremeu-me o corpo quando vi que nossa
historia fora mudada por um micróbio em seu intestino.
Gelei ao ver o Sarney, homem da ditadura, posando
de “oligarca esclarecido” na transição democrática, com seu jaquetão de “teflon”,
até hoje intocado. Assustei-me com a moratória de 87, aterrorizou-me a inflação
de 80% ao mês.
E, depois, vejo a foto do Collor na capa da Veja
- com todo mundo dizendo: “Ele é jovem, bonito, macho...”, revirando os olhos
numa veadagem ideológica. Foi um período tragicômico, com a nação olhando pela
fechadura da “Casa da Dinda” para saber do seu destino. Depois o período do “impeachment”,
dos caras-pintadas.
Durante Itamar, a letargia jeca-tatu, só quebrada
pela mudança na economia com o plano Real que FHC fez (que depois foi roubado
pelo Lula, claro...) Aí, 1994, o ano da esperança, Brasil tetra na Copa e um
intelectual da verdadeira esquerda subindo ao poder. Mas, meu medo histórico
logo voltou, quando vi que a Academia em peso odiava FHC por inveja e rancor,
criando chavões como “neoliberalismo”, “alianças espúrias” (infantis,
comparadas com a era Lula). Os radicais de cervejaria ou de estrebaria não
deram um escasso crédito de confiança a FHC, que veio com uma nova agenda, para
reformar o Estado patrimonialista.
Durante o mandato, o próprio governo FHC cometeu
seu erro máximo que até hoje repercute - não explicou didaticamente para a
população a revolução estrutural que realizava: estabilização da economia, lei
de responsabilidade fiscal, privatizações essenciais, consolidação da dívida
interna, saneamento bancário que nos salvou da crise de hoje, telefonia, tudo
aquilo que, depois, Lula surripiou como obra sua. Foi arrepiante ver a mentira
com 80 por cento de Ibope.
Hoje o que me dá medo é ver que a tentativa de
Dilma governar é sabotada por aqueles que achavam que ela seria apenas uma
clone, uma ‘cover’ do Lula, que esquentaria a cadeira para ele sentar em 2014.
Hoje estamos vendo a cara verdadeira dos donos peronistas da CUT e dos funcionários
mais bem remunerados, os “amigos do povo” que roubam em seu nome.
Arnaldo Jabor