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Os olhos do abutre



A Edgar Allan Poe


Andava à tarde pela Av. Rio Branco quando intuiu que alguém o seguia. Subitamente, girou a cabeça para trás pressentindo que segurariam seu braço. Não havia ninguém, além das centenas de rostos desconhecidos que formam o monstro disforme e imprevisível que chamamos de multidão. 

Continuou caminhando, apressou o passo. Sentia-se zonzo, seus sapatos pisavam sobre uma calçada inconsistente, o concreto nunca antes lhe aparentou ser tão abstrato.

Convencia-se de que não precisava se preocupar, muito tempo se passara desde que executou a tarefa que lhe cabia. O destino é uma força que se cumpre, mesmo que a fragilidade do arrependimento venha depois, assim ele pensava...

A primeira vez que viu Rose, naquele sobrado da Rua do Acre, todos os seus sentidos foram tomados por uma paralisia angustiante. O universo congelou quando ela se aproximou e encostou o corpo quase desnudo ao seu. Ela tocou-lhe o rosto e perguntou o porquê dele estar sozinho e com aparência triste num canto do salão. Ele ficou mudo, não conseguiu emitir nem sequer um som; ela sorriu, encarou seus olhos profundamente, deu-lhe um beijo leve nos lábios e se afastou.

Uma mulher havia lido sua alma, uma meretriz da Praça Mauá o havia decifrado, ele sentia um misto de nojo e surpresa. A lembrança de Rose era a obsessão dos seus dias, não podia mais pensar em nada que não rodasse em torno da daquela imagem feminina que lhe surgiu tão intrigante.

Ele continuava andando, tinha certeza que alguém o seguia...

Como poderiam ter descoberto o que fez? Tudo saiu como planejara, tudo perfeito! 

Olhava em volta, na tentativa de identificar seu perseguidor naquele turbilhão de faces e olhos. Nada! Inútil! Seus passos ficaram mais largos, a respiração mais ofegante e as recordações continuavam a brotar em cascata.

Depois da primeira vez em que a viu naquele prostíbulo, retornou em muitas outras noites para sentir-se próximo a ela. Nunca a tocou, ficava observando seus gestos, tentava ouvir sua voz em meio ao barulho da música ensurdecedora, torturava-se ao vê-la em beijos promíscuos com outros homens. Ela conhecia o seu segredo, ela o invadira.

Não se lembrava mais do momento em que decidiu fazer o que fez, talvez tenha sido na terceira visita àquele bordel, quando esbarrou novamente com os olhos de Rose o analisando, provocando-o a revelar-se. Rose tinha olhar de abutre, penetrava em suas entranhas e ele passou a sentir uma náusea insuportável, tinha ojeriza à sua presença, aversão à sua existência. Sim! Foi quando identificou aquele olhar de rapina que decidiu executar sua trama amoral.

Seu coração batia tão forte que podia escutá-lo, sua cabeça estalava em pulsações desordenadas. Por que o estavam seguindo? Como poderiam tê-lo encontrado? Ele pensou em parar e enfrentar quem o seguia, mas apressou o movimento das pernas, correu, queria escapar...

Antes da execução, dissecou detalhadamente a rotina de Rose, conheceu seu horário de entrada e saída no bordel do Centro da Cidade. Soube que ela saía sozinha e onde pegava a condução que a levava de volta para casa. Certo dia, seguiu a van que a transportava e descobriu que ela morava para os lados da Pavuna.

Agora, ele poderia traçar o roteiro do seu intento.

O fôlego começava a lhe faltar, mas as pernas respondiam numa corrida sem rumo no meio daquela selva de rostos anônimos, ele sentia a massa humana se contrair num espasmo voluntário. Queriam esmagá-lo. Ele estava acuado. Seu perseguidor não iria desistir.

O plano era simples e a técnica que usaria para eliminar a causadora do seu tormento se baseava numa leitura que havia feito há anos, num livro sobre medicina de guerra. Soldados usavam duas facas para apunhalar o inimigo na altura dos rins, simultaneamente. A dor era tão lancinante que a vítima não encontrava força para gritar. Seria assim!...

Quando Rose lançou-se pela Rua do Acre deserta e sombria, ele a chamou. Disse que havia atropelado um cachorro, pediu que ela o ajudasse a acomodar o animal no carro, que ele iria socorrê-lo. Ela se aproximou, curvou-se para tentar enxergar o cão ferido e ele então fincou, com violência e sincronia, os dois punhais nos rins da mulher.

Não houve grito, mas um grunhido abafado e terrível ascendeu do asfalto, o corpo de Rose petrificou-se. Ele a lançou no banco de trás da caminhonete e engrenou o carro pelo percurso que levava até a Pavuna. 

Havia muito sangue, mas ele cobrira os bancos com lençóis e toalhas. No meio do caminho, numa rua deserta e escura do subúrbio, enrolou o corpo nos panos e o descarregou no meio-fio. Os olhos de Rose tinham a expressão do vácuo, o abutre estava morto. Ninguém mais conhecia o seu segredo. Tudo era silêncio...

Suas pernas vacilavam... Desde o dia do assassinato passou a vagar pelo Centro, sabia que alguém passara a segui-lo. As batidas do seu coração oprimiam seus ouvidos, o cérebro queria explodir, não conseguia mais correr, alcançara seu limite. A multidão o envolvia num círculo fechado, seus perseguidores eram muitos, ele ainda tentou um último pique desesperado, mas tropeçou e se viu arremessado, como num salto, aguardando o impacto vertiginoso com o chão áspero. Ele se debateu e bradou a sua culpa enquanto despencava.

Acordou!...

Estava amarrado por correias a uma estreita cama de ferro, o ambiente era de penumbra, cortinas de plástico o contornavam, escutou passos em aproximação. Uma mulher vestida de branco surgiu diante dele, lia-se um nome bordado no jaleco que trajava: Sanatório Estadual.

Ela tocou seu rosto e olhou dentro dos seus olhos. Ele estremeceu e chorou, antes de adormecer novamente ao pico ácido de uma seringa.

Eram os olhos do abutre!...

 Alexandre C. Leite
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Você é um Envelhescente?


Se você tem entre 45 e 65 anos, preste bastante atenção no que se segue. Se você for mais novo, preste também, porque um dia vai chegar lá. E, se já passou, confira.
Sempre me disseram que a vida do homem se dividia em quatro partes: infância, adolescência, maturidade e velhice. Quase correto. Esqueceram de nos dizer que entre a maturidade e a velhice (entre os 45 e os 65), existe a ENVELHESCÊNCIA.
A envelhescência nada mais é que uma preparação para entrar na velhice, assim com a adolescência é uma preparação para a maturidade. Engana-se quem acha que o homem maduro fica velho de repente, assim da noite para o dia. Não. Antes, a envelhescência. E, se você está em plena envelhescência, já notou como ela é parecida com a adolescência? Coloque os óculos e veja como este nosso estágio é maravilhoso:
— Já notou que andam nascendo algumas espinhas em você? Notadamente na bunda?

— Assim como os adolescentes, os envelhescentes também gostam de meninas de vinte anos.

— Os adolescentes mudam a voz. Nós, envelhescentes, também. Mudamos o nosso ritmo de falar, o nosso timbre. Os adolescentes querem falar mais rápido; os envelhescentes querem falar mais lentamente.

— Os adolescentes vivem a sonhar com o futuro; os envelhescentes vivem a falar do passado. Bons tempos...

 — Os adolescentes não têm idéia do que vai acontecer com eles daqui a 20 anos. Os envelhescentes até evitam pensar nisso. 

— Ninguém entende os adolescentes... Ninguém entende os envelhescentes... Ambos são irritadiços, se enervam com pouco. Acham que já sabem de tudo e não querem palpites nas suas vidas. 

— Às vezes, um adolescente tem um filho: é uma coisa precoce. Às vezes, um envelhescente tem um filho: é uma coisa pós-coce. 

 — Os adolescentes não entendem os adultos e acham que ninguém os entende. Nós, envelhescentes, também não entendemos eles. "Ninguém me entende" é uma frase típica de envelhescente.

— Quase todos os adolescentes acabam sentados na poltrona do dentista e no divã do analista. Os envelhescentes, também a contragosto, idem.

— O adolescente adora usar uns tênis e uns cabelos. O envelhescente também. Sem falar nos brincos.

— Ambos adoram deitar e acordar tarde.

— O adolescente ama assistir a um show de um artista envelhescentes (Caetano, Chico, Mick Jagger). O envelhescente ama assistir a um show de um artista adolescente (Rita Lee).

— O adolescente faz de tudo para aprender a fumar. O envelhescente pagaria qualquer preço para deixar o vício.

— Ambos bebem escondido.

— Os adolescentes fumam maconha escondido dos pais. Os envelhescentes fumam maconha escondido dos filhos.

— O adolescente esnoba que dá três por dia. O envelhescente quando dá uma a cada três dia, está mentindo.

— A adolescência vai dos 10 aos 20 anos: a envelhescência vai dos 45 aos 60. Depois sim, virá a velhice, que nada mais é que a maturidade do envelhescente.

— Daqui a alguns anos, quando insistirmos em não sair da envelhescência para entrar na velhice, vão dizer:

—  É um eterno envelhescente!
Que bom.

Mário Prata
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