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A hora da decisão


Um vendedor de camelos chegou numa aldeia vendendo belos animais, por excelente preço. Todos compraram – menos o Sr. Hoosep.
Tempos mais tarde, a aldeia foi visitada por outro vendedor – com excelentes camelos, mas com preços bem mais altos. Desta vez, Hoosep comprou alguns animais.
- Você deixou de comprar os camelos quase de graça, e agora vai adquiri-los por quase o dobro? – criticaram os amigos.
- Aqueles que estavam baratos me eram muito caros, porque na época eu estava com pouco dinheiro – respondeu Hoosep.
- Estes podem parecer mais caros; mas para mim são baratos, já que tenho mais que o suficiente para comprar.

Paulo Coelho
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A força e autopia


Num ano qualquer do século passado, estava em Milão, a trabalho, tive tempo e vontade para visitar uma exposição dedicada a Leonardo da Vinci, que incluía grande parte de seus projetos científicos e mecânicos. Acredito que quase todo mundo conhece, pelo menos em parte, alguns desses desenhos ou deles tomou conhecimento.
Sabe-se com alguma certeza que ele previu, rudimentarmente, mas com séculos de antecedência, algumas das maiores conquistas da técnica e da indústria em geral, como o avião, o submarino, o helicóptero, o automóvel e até mesmo a metralhadora e os tanques de guerra.
Verdade seja dita: o princípio dessas máquinas formidáveis, sonhadas e criadas em esboços por Da Vinci, é o mesmo das que atualmente dispomos. O que lhe faltou foi a força motora, ou seja, uma fonte de energia autônoma, que fizesse suas geringonças voar, submergir, andar, disparar projéteis etc.
No tempo dele, a energia conhecida e utilizada vinha dos braços ou das pernas do próprio homem, de alguns animais, como o cavalo, o boi, e sobretudo dos ventos, que moviam embarcações e moinhos.
A própria água, que estava tão na cara como geradora de energia, era pouquíssimo usada em precários moinhos. Os elementos de transmissão, por serem muito complexos e até mesmo desconhecidos, impediam que a humanidade usasse a poderosa energia da gravidade hidráulica.
Mas o princípio técnico ou científico dos projetos de Leonardo era basicamente o mesmo que a tecnologia contemporânea usa e abusa para mover e criar o novo mundo nem sempre admirável em que vivemos.
O seu helicóptero, por exemplo, tinha o rotor e as pás iguais às de hoje. O diabo é que eram movidas por seis homens robustos, instalados numa plataforma anexa. Eles tinham de rodar continuamente várias manivelas com força suficiente para manter o aparelho no ar. Evidente que o projeto ficou no papel até que os motores de explosão, os jatos e a energia atômica pudessem substituir a força humana.
Bem, onde quero chegar? Para falar com honestidade, não quero chegar a lugar algum. Se possível, desejaria apenas partir, sair de onde estou, mesmo sabendo que nunca chegarei onde os sonhos da humanidade nunca chegam.
Pelo menos, no que me diz respeito, tais e tantos sonhos de todos nós nunca serão para os meus fatigados dias. Um deles, certamente o mais importante, vem lá de trás, da mais profunda antiguidade, mas vem sendo descartado do projeto humano pela sua aparente inviabilidade.
Dando um exemplo doméstico e atual: muitos dos princípios contidos em nossa Constituição (1988), que é uma obra-prima de utopia, um sonho impossível como o do "Homem de La Mancha", ficarão adormecidos por muito tempo, talvez séculos. Há que esperar por uma força de energia que ainda não conhecemos.
Assim como nos tempos de Da Vinci seria impossível imaginar a força do vapor ou do motor de explosão, ignoramos qual será a fonte energética na escala social, econômica e política capaz de fazer funcionar as roldanas da complexa engrenagem que agora nos parece inviável ou absurda.
Leonardo foi considerado um charlatão pelos sábios de sua época. Toleravam-no como pintor, somente isso.
Voar? Mais fácil seria fazer um burro voar. Contam que os colegas de São Tomás de Aquino, também frades dominicanos, o chamaram para ver exatamente isso: um burro voando.
O autor da "Suma Teológica" saiu de sua cela e foi ver o burro que voava. Os colegas zombaram dele. Um sábio, o maior da Idade Média, acreditava que um burro podia voar.
O doutor Angélico comentou: "Devia ser mais fácil um burro voar do que um religioso mentir".

Carlos Heitor Cony
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