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Das resoluções

Judith se considera cheia de defeitos, e decide melhorar. Mas não é sua Lenda Pessoal que a empurra neste sentido; a sociedade diz que existe um padrão de crescimento, que é preciso atingir.
No final do ano, Judith faz uma lista de decisões para o ano seguinte. Os primeiros dias de janeiro são fáceis; ela obedece a lista, dá passos que sempre adiou. Em fevereiro, já não tem a mesma disposição, e a lista começa a falhar. Quando março chega, Judith já quebrou todas as promessas feitas no Ano Novo; e irá sentir-se pequena, incapaz, e culpada até a última semana do ano.
Quando, enfim, esta semana chega, ela faz de novo as promessas, e o ritual se repete.
Não devemos tentar melhorar naquilo que os outros esperam de nós, mas descobrir o que esperamos de nós mesmos. Aí nem é preciso prometer nada, porque mudamos com prazer e alegria.

Paulo Coelho
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Casamento

O tão discutido casamento homossexual não deixa de ser uma sequência natural da longa e estranha história de uma convenção, a união solene entre duas pessoas, que começou no Éden. A Bíblia não esclarece se Adão e Eva chegaram a se casar, formalmente. Deve ter havido algum tipo de solenidade. Na ausência de um padre, o próprio Criador, na qualidade de maior autoridade presente, deve ter oficiado a cerimônia. No momento em que Deus perguntou se alguém no Paraíso sabia de alguma razão para que aquele casamento não se realizasse, ninguém se manifestou, mesmo porque não havia mais ninguém. A cerimônia foi simples e rápida apesar de alguns problemas - Adão não tinha onde carregar as alianças, por exemplo - e Adão e Eva ficaram casados por 930 anos. E isso que na época ainda não existiam os antibióticos.
Mais tarde, instituiu-se o dote. Ou seja, as mulheres, como caixas de cereais, passaram a vir com brindes. O pai da noiva oferecia, digamos, dez cântaros de azeite e dois camelos ao noivo e ainda dizia:
- Pode examinar os dentes.
- Deixa ver...
- Da noiva não, dos camelos!
Houve uma época em que os pais se encarregavam de casar os filhos sem que eles soubessem. Muitas vezes, depois da cerimônia nupcial, os noivos saíam, ofegantes, para a lua de mel, entravam no quarto do hotel, tiravam as roupas, aproximavam-se um do outro - e apertavam-se as mãos.
- Prazer.
- Prazer.
- Você é daqui mesmo?
Eram comuns os casamentos por conveniência, pobres moças obrigadas a se sujeitar a velhos com gota e mau hálito para salvar uma fortuna familiar, um nome ou um reino. Sonhando, sempre, com um Príncipe Encantado que as arrebataria. O sonho era sempre com um Príncipe Encantado. Nenhuma sonhava com um Cavalariço ou com um Caixeiro Viajante Encantado. Mais tarde veio a era do Bom Partido. As moças não eram mais negociadas, grosseiramente, com maridos que podiam garantir seu futuro. Eram condicionadas a escolher o Bom Partido. Podiam namorar quem quisessem, mas na hora de casar...
- Vou me casar com o Cascão.
- O quê?!
- Nós nos amamos desde pequenos.
- O que que o Cascão faz?
- Jornalismo.
- Argk!
A era do Bom Partido acabou quando a mulher ganhou sua independência. Paradoxalmente, foi só quando abandonou a velha ideia romântica do ser frágil e sonhador que a mulher pôde realizar o ideal romântico do casamento por amor, inclusive com o Cascão. Só havendo o risco de o Cascão preferir casar com o Rogério.

Luis Fernando Veríssimo
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